21
Ago 16

TRINDADE

conhecemos o fulgor das nossas estrelas

privamos com o seu brilho de pedra

somamos a nostalgia à memória ao fim

 

José Viale Moutinho, Retrato de Braços Cruzados (1989)

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19
Ago 16

COMO FANTASMAS

Como fantasmas que dançam

 

sem mexer os pés,

sem mexer as mãos,

 

sorrindo anuindo

sofrendo sorvendo

 

sem mexer as ancas.

 

Sem mexer sequer a sua vasta compreensão.

 

Como fantasmas que dançam.

 

José Luís Costa, Da Madragoa a Meca (2013)

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18
Ago 16

"uma flor abriu"

uma flor abriu

e vi:

 

não foste a primeira

nem serás a última.

lembra, foste a única

 

que não amei.

 

perdoa.

 

amadeu liberto fraga, deriva e compósito (2014)

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28
Jun 16

DEDICATÓRIA

Não

te ofereço

a rosa

mas

o nome

da rosa

 

que

serviria

meu amor

oferecer-te

a rosa

se dura

a rosa

pouco mais

que o tempo

em que te

digo        rosa?

 

Não te

ofereço

a rosa

mas

o nome

meu amor

do amor

da rosa

eco

do que te digo

repetido

e mais rosa

te ofereço

se é

rosa

o que redigo

 

(rosa por cem vezes repetido)

 

do que

te dar

a rosa

que

não

dizendo

então

de amor

desdigo

 

Rita Taborda Duarte,

Experiências Descritivas (2007) /

Leya Poemas (2009)

 

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25
Jun 16

CHAMA E FUMO

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

Medita no que vais fazer:

O fumo vem, a chama passa...

 

Gozo cruel, ventura escassa,

Dono do meu e do teu ser,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Tanto ele queima! -- e, por desgraça,

Queimado o que melhor houver,

O fumo vem, a chama passa...

 

Paixão puríssima ou devassa,

Triste ou feliz, pena ou prazer,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

A cada par que a aurora enlaça,

Como é pungente o entardecer!

O fumo vem, a chama passa...

 

Antes, todo ele é gosto e graça.

Amor, fogueira linda a arder!

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Porquanto, mal se satisfaça,

(Como te poderei dizer?...)

O fumo vem, a chama passa...

 

A chama queima. O fumo embaça.

Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa...

 

 

Teresópolis, 1911.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

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13
Jun 16

BALADA DO AMOR E DO ESPÍRITO

Que bom era exprimi-la!

Mas só posso sonhá-la...

Como era bom levá-la,

como era bom!... Tranquila!

 

Como era bom despi-la

ao poder encontrá-la!

-- Já não sorri. Não fala.

Da carne separá-la,

como era bom despi-la!

 

Acordá-la e despi-la,

do seu corpo despi-la!

mas a alma, que é sua,

que bom era levá-la!

para longe levá-la...

para bebê-la, nua.

-- Já não respira... Estua.

-- Já não responde... Cala.

 

Fernando de Paços,

in António Manuel Couto Viana (ed.), As Folhas de Poesia Távola Redonda

 

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22
Mai 16

'PROMENADE' - SOL NUM QUARTO VAZIO (EDWARD HOPPER)

Às vezes sento-me na

sala a ouvir Coltrane,

my favorite things... O crepúsculo

 

da memória esbate-se

em ténues raios de

luz nos ecos desses dias:

 

Não vás ao mar, Tóin'... O tédio

dos sessenta, procissões,

indolentes romarias...

 

cheiro a fritos, farturas...

Nostalgia? Toca a

banda no coreto... Que

 

vontade de uivar, de 

correr, de fugir p'ra longe

desse imenso torpor.

 

Mário Avelar, Pela Mão de Mussorgski numa Galeria com Anjos (2000)

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09
Mai 16

ISMAELITAS

Quando penso nesse instante,

penso em corredores, veredas

e pátios iluminados

pelo luar,

algures conduzindo à

mansão de Fairfax. Ahab

partira enfim. O órfão

vogava sob o olhar atento

de Rachel.

 

O neófito subiu a escada

de mármore em silêncio,

como quem receia despertar

o louco, retirá-lo à

região das trevas e das

sombras funéreas, e

chamá-lo ao mundo dos vivos

para que prossiga a

eterna demanda. Ela

 

esperava-o no quarto

ao fundo, olhando o bosque

através da janela aberta.

Aproximou-.se, tocou-lhe os cabelos,

sentou-se na cama a

seu lado. Uma hora depois

ambos observam o bosque

iluminado

pelo luar.

 

Dois gatos negros abanam

lentamente a ponta do rabo.

E somente eu escapei

para vos contar.

 

Call me Ishmael.

 

Mário Avelar, Ciades de Refúgio (1991)

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24
Abr 16

SOLENEMENTE

Juro por tudo quanto é jura... Juro,

por mim... por ti... por nós... por Jesus Cristo

-- que hei-de esquecer-te! Vê-me: estou seguro

contre o teu sólio, a cuja queda assisto.

 

E, visto que duvidas tanto, visto

que ris do que, solene, te asseguro,

juro mais: pelo Ser em que consisto

por meu Passado, pelo meu Futuro,

 

Juro pela Mãe-Virgem concebida;

pelas venturas de que vou no encalço!

por minha vida!... pela tua vida...

 

Juro por tudo que mais amo e exalço!...

...E, depois de uma jura tão comprida,

juro... juro que estou jurando falso!...

 

Hermes Fontes

in Evaristo Ponte dos Santos,

Antologia Portuguesa e Brasileira (1974)

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11
Abr 16

NEM SÓ O SUL

Nem só o sul O'Neill nem só o sol
por debaixo da sombra há outras sombras
no interior da casa talvez na cama
sob os lençóis
no desejo reprimido na violência contida
no ancestral orgulho masculino
no grito abafado das mulheres
há outras noites outras sombras outras portas fechadas
outros domínios proibidos
outras coutadas.

 

 

Manuel Alegre, Alentejo e Ninguém (1996)

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