06
Fev 17

O VELHO CASTELO -- OS ADEUSES DO POETA (Giorgio De Chirico)

Quando este silêncio

se instala e o caminho

parece tomado de

 

uma névoa intensa,

tão intensa que nos cega...

quando candeia alguma

 

se insinua... regresso

ao teu rosto, aos olhos

teus que tudo iluminam,

 

ao teu corpo, ao menino.

ao luar, aos anjos, às

palavras, inevitáveis

 

lugares deste encontro,

deste dédalo solar

que o jacto de sangue é.

 

Mário Avelar, Pelas Mãos de Mussorgsky numa Galeria com Anjos (2000)

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28
Jan 17

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abu Bakr,

Os queridos lugares de Silves

E diz-me se deles a saudade

É tão grande quanto a minha.

Saúda o palácio dos Balcões

Da parte de quem nunca os esqueceu.

Morada ded leões e de gazelas

Salas e sombras onde eu

Doce refúgio encontrava

Entre ancas opulentas

E tão estreitas cinturas!

Mulheres níveas e morenas

Atravessavam-me a alma

Como brancas espadas

E lanças escuras

Ai quantas noites fiquei,

Lá no remanso do rio,

Nos jogos do amor

Com a da pulseira curva

Igual aos meandros da água

Enquanto o tempo passava...

E me servia de vinho:

O vinho do seu olhar

Às vezes o do seu copo

E outras vezes o da boca.

Tangia cordas de alaúde

E eis que eu estremecia

Como se estivesse ouvindo

Tendões de colos cortados.

Mas retirava o seu manto

Grácil detalhe mostrando:

Era o ramo de salgueiro

Que abria o seu botão

Para ostentar a flor.

 

Al-Mu'tamid,

in Adalberto Alves, O Meu Coração É Árabe (1987)

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16
Jan 17

DA DENSIDADE E DA TRANSPARÊNCIA

Vai-se formando de tudo a densidade

mãos que apertamos olhos fulvos

que algum dia se entornaram verdes

e de tão verdes anémonas sem fundo.

 

E de tudo também a transparência

em breves segundos se insinua

como aqueles corpos que fugindo

o nosso olhar e desejo desabitam.

 

Em desafio ao sol a todas as estrelas

numa ronda de encontro e despedida

vai a roda da vida nos passando.

 

Por mais vigilantes e atentos ao acaso

algo de nós foge com a única promessa

de a luz que vemos não acabar nunca.

 

José Calrlos González, Biofonias

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30
Dez 16

DIA 1

Hoje não há leite.

O alumínio

não foi 

à flor do lume.

 

Que silêncio

quadrado

na cozinha!

Lá fora

 

-- um frio só

de rua fria.

Que risco

 

tão um

o número 

deste dia!

 
 
Pedro Alvim, A Esfera dos Dias (1985)
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27
Dez 16

HOMERO

Escrever o poema como um boi lavra o campo

Sem que tropece no metro o pensamento

Sem que nada seja reduzido ou exilado

Sem que nada separe o homem do vivido

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, 

O Búzio de Cós e Outros Poemas (1997)

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30
Out 16

BALADA DO REDONDO

Tudo o que à noite é mais claro

é escuro durante o dia

portais em que nem reparo

postigos de talhe raro

e o segredo o desamparo

a que se chama poesia.

 

E quando à noite me deito

apago a luz para ver

sobre a água do meu peito

afilado rosto estreito

rendas de lençol no leito

e o teu corpo de mulher.

 

E assim habito contigo

à luz da luz apagada

e sem palavras te digo

juras de amor inimigo

carícias a que não ligo

suspiros de namorada.

 

Árvores que o dia consome

casinhas de telha vã

ó ruas que a sombra come

ninguém conhece o meu nome

ninguém mata a minha fome

e logo à noite é manhã.

 

António Lobo Antunes,

Letrinhas de Cantigas (2002)

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16
Out 16

LITANIA

O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror;

 

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade, Doze Poemas

 

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14
Out 16

AURORA

O poeta ia bêbedo no bonde.

O dia nascia atrás dos quintais.

As pensões alegres dormiam tristíssimas.

As casas também iam bêbedas.

 

Tudo era irreparável.

Ninguém sabia que o mundo ia acabar

(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),

que o mundo ia acabar às 7 e 45.

Últimos pensamentos! Últimos telegramas!

José, que colocava pronomes,

Helena, que amava os homens,

Sebastião, que se arruinava,

Artur, que não dizia nada,

embarcam para a eternidade.

 

O poeta está bêbedo,

mas escuta um apelo na aurora:

Vamos todos dançar

entre o bonde e a árvore?

 

Entre o bonde e a árvore

dançai, meus irmãos!

Embora sem música

dançai, meus irmãos!

Os filhos estão nascendo.

Com tamanha espontaneidade.

Como é maravilhoso o amor

(o amor e outros produtos).

Dançai, meus irmãos!

A morte virá depois

como um sacramento.

 

Carlos Drummond de Andrade, Brejo das Almas

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09
Out 16

IN MEMORIAM

(F.G.L.)

 

Noite aberta.

A lua

tropeça nos juncos.

Que procura a lua?

 raiz do sangue?

Um rio onde durma?

A voz delirando

no olival, exangue?

Sonâmbulo,

que procura a lua?

O rosto de cal

que no rio flutua?

 

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas

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04
Out 16

...

«[...] nada mais ambíguo, nada mais fugidio, nada mais delicado, nada mais subjectivo, nada mais rebelde à análise que uma mundividência poética.»

 

Manuel Antunes, «Mundividências da poesia portuguesa desde o romantismo aos anos 60» (1973)

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