18
Set 17

DOIS

É conveniente e sensato

ter um cão ou ter um gato.

Sentem as ondas da terra

e as garras longas da guerra,

 

Guerra que morde e se aferra

à humana condição,

cão ou gato sempre espera

que acabe tal maldição.

 

José Carlos González, Breve Tratado da Afeição (1997)

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15
Set 17

COMME IL FAUT

Um bom broche

acaba

sempre

num belo sorriso

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004) 

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06
Set 17

"Na breve sombra"

Na breve sombra

as aves

dormem.

 

Sabem a matéria do sono:

água cansada de tanto azul.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta (2001)

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04
Set 17

"nos primeiros dias"

nos primeiros dias

choveu desmesuradamente

depois

as nuvens habituaram-se

à minha presença

 

Valter Hugo Mãe,

O Resto da Minha Alegria seguido de A Remoção das Almas (2003)

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31
Ago 17

NEFERTITI

Aqui estou presa em terracota.

Mas, tanto como dantes, deste lado

meus olhos adivinham o horizonte antigo

que então me iluminava.

 

É pequena esta casa para mim,

atravesso-lhe os muros e vejo em cada dia

renascer a verdade sobre o mundo.

 

Descem ao longe os barcos pelo rio

(esse que aqui não há)

mas há uma viagem, e ela é que me prende

a um barro sem fim.

 

Pedro Tamen, Analogia e Dedos (2006)

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30
Ago 17

TRADIÇÃO

Palavras, substância, ideia,

persistentes e danosos vermes

da memória, em várias chamas

variamente ardendo, com sôfrega

raiva vos devoro.

 

                          Em vós

mudado, de vós moldarei,

porque minhas, palavras

outras e únicas.

                          Louco

 

ou iluminado, a baba

incandescente tombar-me-á

incólume nos lábios febris,

ouro e sangue, sangue e ouro.

Artífice elusivo do sonho,

 

cinábrio do torvelinho e da noite,

tal poder pode mais em mim

do que eu poder posso.

Instrumento, embora, querer

tê-lo-ei querido.

 

                            Mas querer

quis mais que eu.

                            E o que terei

querido, quer em mim

e seu poder é cumpri-lo.

 

Rui Knopfli, O Corpo de Atena (1984)

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29
Ago 17

"Alívio"

Alívio

        O sonho desliza

Do sopé para o lago

Da falda

Para a crista da montanha

O peso

          formidando

                          de quando em onde

Se evola

             e nos deixa

                                livres

Totalmente reais

                          deslizando

Na viagem bifronte do sonho

 

Londres

27-28 de Julho 90

Alberto de Lacerda, Átrio (1997)

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16
Mai 17

ÚLTIMO SONETO

Se me sobrevivesse, imperecida,

A memória da angústia que sofri

Na desordem do tempo em que vivi,

Já tinha fundamento a minha vida.

 

Debrucei-me na História, mas não vi

outra idade com esta parecida:

Tantos caminhos, tantos! e perdida,

A noção de chegar até aqui!

 

Árvore do passado! já não cabem

mais ilusões à sombra dos teus ramos...

E os teus frutos, agora, a nada sabem!

 

Poesia! onde me levas? onde vamos,

se as fórmulas antigas não nos abrem

O mistério da treva que sondamos!?

 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

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12
Abr 17

"o copo sobre a mesa"

o copo sobre a mesa

transparente

para ser cheio

da tua vida

espessa até ao cimo

 

Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

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05
Abr 17

...

«O que os poemas querem dizer, só eles sabem o que querem dizer.»

António Carlos Cortez, «Herberto Helder -- O nome mais obscuro»
JL-Jornal de Letras, Arte e Ideias,
Lisboa, 29 de Maio de 2013
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