08
Mai 12

"Os antigos eram jovens, e nós"

Os antigos eram jovens, e nós,

disse Bacon num lúcido momento,

somos velhos, embrulhados em

constante movimento. Hoje podia

ter vinte anos, um corpo diferente

capaz de reflectir

o sol, que além das nuvens brilha;

 

saberia, com arte de palavras,

dizer, do céu, os nomes mais completos;

de barbas brancas visitando asilos

os nossos filhos nos dariam fama.

E ainda assim alguma

pequena coisa perderia: o céu, talvez,

na sua cor mais fria;

 

manhãs de temporal, quando distantes

relâmpagos azuis cobrem a terra;

o cheiro a chuva, o sabor de alguns frutos;

estória por contar, livros por ler;

a sábia opinião do chanceler;

e sobretudo, no teu rosto, o véu

do antigo amor chamado juventude.

 

António Franco Alexandre

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07
Mai 12

O DESPRENDIMENTO

Não escrevas, se és Gênio, por vaidade.

Faze tudo o que deves por dever.

Sòmente a alma de apóstolo persuade

e obriga as almas débeis a poder.

 

Que o teu verbo, se és deus, ensine e brade

sacudindo os que morrem sem viver.

Só assim hás de ter sinceridade

para pensar e amor para escrever.

 

Não te lembres da glória, combatendo!

Ela virá quando tiver de vir,

no teu dia mais fúnebre e tremendo...

 

Ela cresce, entroculta, em teu porvir!

Sê digno de esperá-la, assim sofrendo,

sem desejos sequer de a conseguir.

 

José Oiticica

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06
Mai 12

Margarida



autor: Rubén Darío (Félix Rubén García Sarmiento (Metapa, Matagalpa, Nicarágua, 18.I.1867 -- León, Nicarágua, 6.II.1916)

título: Margarida

tradução: Tatiana Pereira

editor: Imaginarium

local: Saragoça

ano: 2003

págs.: [30]

dimensões: 16,2x16,5x1 cm. (cartonado)

ilustrações: Elena Odriozola

publicado por RAA às 17:18 | comentar
04
Mai 12

"Vai, se tens de ir -- disse ela. Rezarei"

Vai se tens de ir -- disse ela. Rezarei

para que os deuses te protejam sempre.

E aqui te juro que hei-de renascer

lá onde quer que fiques, meu amor.

 

Dandin

(Jorge de Sena)

publicado por RAA às 14:57 | comentar
03
Mai 12

ANTECIPAÇÃO

As patas da noite esmagam

os lírios débeis da aurora.

Por invisíveis estradas

negros cavalos galopam.

Ao longe brilham dois lagos

da cor triste de teus olhos.

Dunas de angústia se formam

nas praias frias da morte.

Agito os braços. É inútil

tentar opor à corrente

de areia e sangue, que avança,

os versos frágeis de um poema.

É inútil falar de rosas

e frutos novos e agrestes

flores, quando no peito,

cardos apenas florescem.

A aurora é doce. E anuncia

um dia calmo, entre o canto

dos pássaros e a alegria

da primavera nos campos.

Amada, não mais veremos

o dia que se levanta.

Negros cavalos galopam,

já é menor a distância...

Serão altas como nuvens,

no céu claro da manhã,

as rosas que hão-de nascer

de minha carne e teu sangue.

 

Domingos Carvalho da Silva

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02
Mai 12

NA NÉVOA

Como é estranho andar no nevoeiro!

Sòzinha a pedra e a planta,

Uma árvore não vê a outra,

Solidão tanta.

 

Muitos amigos eu tinha

No tempo da vida viva;

Agora que a névoa cai,

De tudo a vista me priva.

 

Nada sabe quem não sabe

Como a treva nos separa

De tudo e todos, tão doce,

inescapável, avara.

 

Como é estranho andar no nevoeiro!

A vida é solitude -- não adianta.

Ninguém conhece um outro.

Solidão tanta.

 

Hermann Hesse

(Jorge de Sena)

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29
Abr 12

Fábulas de Bocage

autor: Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 15.IX.1765 -- Lisboa, 21.XII.1805)

título: Fábulas de Bocage

edição: Centro de Estudos Bocageanos, a partir da edição de 1805

introdução e actualização de texto: Daniel Pires

local: Setúbal

ano: 2000

dimensões: 24,5x20,50,8 cm (cartonado)

págs.: 40

ilustrações: Julião Machado

retrato do autor: Nogueira da Silva

impressão: Corlito, Setúbal

tiragem: 2000

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TERRA

1

 

Lá em cima, o campanário branco e o galo dos ventos.

A torre deve dez metros de altura ao brasileiro dos Casais.

Meu avô doou um pedaço de quintal. Os outros fizeram o resto.

E hoje -- badalão! badalão! -- toda a serra

tem os ouvidos claros para o som de bronze.

 

Fernando Namora

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26
Abr 12

VITRAIL

Cette verrière a vu dames et hauts barons

Étincelants d'azur, d'or, de flamme et de nacre,

Incliner, sur la dextre auguste qui consacre,

L'orgueil de leurs cimiers et de leurs chaperons;

 

Lorsqu'ils allaient,au bruit du cir et des clairons,

Ayant le glaive au poing, le gerfaut ou le sacre,

Vers la plaine ou le bois, Byzance ou Saint-Jean d'Acre,

Partir pour la croisade ou le vol des hérons.

 

Aujourd'hui les seigneurs auprès des châtelaines,

Avec le lévrier à leurs longues poulaines,

S'allongent aux carreaux de marbre blanc et noir;

 

Ils gisent san voix, sans geste et sans ouïe,

Et de leurs yeux de pierre ils regradent sans voir

La rose du vitrail toujours épanouie.

 

José Maria de Heredia

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"Ternos amadores caminhavam"

Ternos amadores caminhavam

no caminho que ia dar ao ponto

mais alto da serra, desapareceram

na luz do sol, davam e tiravam

as mãos, vestiam de maneira quase

igual pelo azul do mar. Espião

apenas do suspeito? Também os

pássaros, os arbustos um pouco

inclinados ao vento, as conchas

calcinadas, mistura de cheiros

bons. Os espinhos secos cravavam-se

nas pernas, vi o que não vi, a

ofegante respiração, o alegre

final. Distante da ameaça e do

perdão deixem-me entrar nesse jogo,

apenas mais um.

 

Helder Moura Pereira

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