25
Set 16

APÓSTROFO

Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p'lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos -- e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçura buscavam nos peões -- sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali, o néctar; ora o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando... Assim tudo era -- e 'té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhados, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos -- e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.

 

Pedro Alvim, Os Jogadores de Xadrez (1986)

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22
Set 16

TARDE

Vago sabor de outono

E de coisas extintas.

Nem desejos nem dor...

Meu coração esquece.

 

No ar parado voga

Talvez uma saudade

De tudo que perdi,

De tudo que não fui.

 

Ninguém chama por mim

Nem chamo por ninguém.

Instante calmo e triste...

Como a vida está longe!

 

No dia húmido cai

Um silêncio dormente.

Uma música ausente

Meu coração embala.

 

Luís Amaro

As Folhas de Poesia Távola Redonda

(edição: António Manuel Couto Viana)

 

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20
Set 16

SÉTIMO POEMA DO PESCADOR

Como estrela cadente

como pedra rolando

na corrente

como lua caindo por detrás das dunas

como revérbero nas águas como reflexo

como um foco na noite

como um cigarro uma lanterna um astro

como escamas luzindo no canal

como o resto de um rasto

como um sinal: mada mais do que um sinal

uma luz a acender e a apagar.

Ou eu

a pescar.

 

Lisboa, 26.12.96

 

Manuel Alegre, Senhora das Tempestades (1998)

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19
Set 16

DETERMINISMO

Verão --

outra vez eclodimos

cegos e simultâneos.

 

Soledade Santos, Sob os Teus Pés a Terra (20150

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18
Set 16

CANTO PENINSULAR

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui

há novecentos anos. Não cresci nem mudei.

Apodreci.

Doem-me as próprias raízes que criei.

 

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou

a tempestade.

Muita coisa mudou. Só não mudou

este monstro que tem a minha idade.

 

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou

em novecentos anos.

Eu é que não mudei. Neste monstro que sou

só os olhos ainda são humanos.

 

Quantas vezes gritei e não me ouviram

quantas vezes morri e me deixaram

nos campos de batalha onde depois floriram

flores e pão que do meu sangue se criaram.

 

Andei de terra em terra

por esse mundo que de certo modo descobri.

E fui soldado contra a minha própria guerra

eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

 

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.

Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.

Eis-me tal como sou há novecentos anos

eu que não sei escrever sequer o meu próprio nome.

 

Falam de mim e dizem: é um herói.

(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)

Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói

estar aqui.

 

Manuel Alegre, Praça da Canção  (1965)

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12
Set 16

"queria ir contigo aos caminhos"

queria ir contigo aos caminhos

onde outrora ficou meu coração

inconcluído

 

quando o vento de súbito

inclinava as papoilas e levantava no ar

um pó de que te protegias

um rápido momento ficava perdido

do teu rosto

 

e aflorava a cintilação da tua ausência

como um susto.

 

Manuel Afonso Costa, Os Últimos Lugares (2004)

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11
Set 16

E O BOSQUE SE FEZ BARCO

Já meu país foi uma flor de verde pinho.

País em terra. (E semeá-lo uma aventura.)

Depois abriu-se o mar como um caminho.

Depois o bosque se fez barco e o barco arado

dessa nova e fatal agricultura:

colher no mar o fruto nunca semeado.

 

Manuel Alegre, O Canto e as Armas (1967)

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05
Set 16

"Partilhar o comum da vida"

Partilhar o comum da vida

os laços

a claridade de alguns gestos.

Inventar os mapas

as estações minuciosas da melancolia.

Aprender o breviário do estio.

Lavar o olhar

na luz morosa da tarde

em cada rosto

em cada pedra.

Renovar o espanto.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta

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04
Set 16

SOMOS DE BARRO

Somos de barro. Iguais aos mais.

Ó alegria de sabê-lo!

(Correi, felizes lágrimas,

por sobre o seu cabelo!)

 

Depois de mais aquela confissão,

impuros nos achámos;

nos descobrimos

frutos do mesmo chão.

 

Pecado, Amor? Pecado fora apenas

não fazer do pecado

a força que nos ligue e nos obrigue

a lutar lado a lado.

 

O meu orgulho assim é que nos quer.

Há-de ser nosso o pão, ser nossa a água.

Mas vencidas os ganhem, vencedoras,

nossa vergonha e nossa mágoa.

 

O nosso Amor, que história sem beleza,

se não fora ascensão e queda e teimosia,

conquista... (E novamente queda e novamente

luta, ascensão...) Ó meu Amor, tão fria,

 

se nascêramos puros, nossa história!

 

Chora sobre o meu ombro. Confessámos.

E mais certos de nós, mais um do outro,

mais impuros, mais puros, nós ficámos.

 

Sebastião da Gama, Pelo Sonho É que Vamos 

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NÃO RESISTAS

Não negues os teus lábios

aos seus lábios

depois dos lábios seus

beijarem o teu falo

 

Porque se o néctar

sabe a fel para ti

à donzela generosa soube a mel

 

Deixa pois teu coração

aberto ao mel

deixa beijar os teus lábios

não resistas

 

De contrário, meu anjo

és todo fel

e tua alma

é um ninho de fascistas

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (

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