16
Jan 17

DA DENSIDADE E DA TRANSPARÊNCIA

Vai-se formando de tudo a densidade

mãos que apertamos olhos fulvos

que algum dia se entornaram verdes

e de tão verdes anémonas sem fundo.

 

E de tudo também a transparência

em breves segundos se insinua

como aqueles corpos que fugindo

o nosso olhar e desejo desabitam.

 

Em desafio ao sol a todas as estrelas

numa ronda de encontro e despedida

vai a roda da vida nos passando.

 

Por mais vigilantes e atentos ao acaso

algo de nós foge com a única promessa

de a luz que vemos não acabar nunca.

 

José Calrlos González, Biofonias

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30
Dez 16

DIA 1

Hoje não há leite.

O alumínio

não foi 

à flor do lume.

 

Que silêncio

quadrado

na cozinha!

Lá fora

 

-- um frio só

de rua fria.

Que risco

 

tão um

o número 

deste dia!

 
 
Pedro Alvim, A Esfera dos Dias (1985)
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27
Dez 16

HOMERO

Escrever o poema como um boi lavra o campo

Sem que tropece no metro o pensamento

Sem que nada seja reduzido ou exilado

Sem que nada separe o homem do vivido

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, 

O Búzio de Cós e Outros Poemas (1997)

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30
Out 16

BALADA DO REDONDO

Tudo o que à noite é mais claro

é escuro durante o dia

portais em que nem reparo

postigos de talhe raro

e o segredo o desamparo

a que se chama poesia.

 

E quando à noite me deito

apago a luz para ver

sobre a água do meu peito

afilado rosto estreito

rendas de lençol no leito

e o teu corpo de mulher.

 

E assim habito contigo

à luz da luz apagada

e sem palavras te digo

juras de amor inimigo

carícias a que não ligo

suspiros de namorada.

 

Árvores que o dia consome

casinhas de telha vã

ó ruas que a sombra come

ninguém conhece o meu nome

ninguém mata a minha fome

e logo à noite é manhã.

 

António Lobo Antunes,

Letrinhas de Cantigas (2002)

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16
Out 16

LITANIA

O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror;

 

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade, Doze Poemas

 

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14
Out 16

AURORA

O poeta ia bêbedo no bonde.

O dia nascia atrás dos quintais.

As pensões alegres dormiam tristíssimas.

As casas também iam bêbedas.

 

Tudo era irreparável.

Ninguém sabia que o mundo ia acabar

(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),

que o mundo ia acabar às 7 e 45.

Últimos pensamentos! Últimos telegramas!

José, que colocava pronomes,

Helena, que amava os homens,

Sebastião, que se arruinava,

Artur, que não dizia nada,

embarcam para a eternidade.

 

O poeta está bêbedo,

mas escuta um apelo na aurora:

Vamos todos dançar

entre o bonde e a árvore?

 

Entre o bonde e a árvore

dançai, meus irmãos!

Embora sem música

dançai, meus irmãos!

Os filhos estão nascendo.

Com tamanha espontaneidade.

Como é maravilhoso o amor

(o amor e outros produtos).

Dançai, meus irmãos!

A morte virá depois

como um sacramento.

 

Carlos Drummond de Andrade, Brejo das Almas

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09
Out 16

IN MEMORIAM

(F.G.L.)

 

Noite aberta.

A lua

tropeça nos juncos.

Que procura a lua?

 raiz do sangue?

Um rio onde durma?

A voz delirando

no olival, exangue?

Sonâmbulo,

que procura a lua?

O rosto de cal

que no rio flutua?

 

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas

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04
Out 16

...

«[...] nada mais ambíguo, nada mais fugidio, nada mais delicado, nada mais subjectivo, nada mais rebelde à análise que uma mundividência poética.»

 

Manuel Antunes, «Mundividências da poesia portuguesa desde o romantismo aos anos 60» (1973)

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03
Out 16

"Eis que o rodar do tempo me fez velha"

Eis que o rodar do tempo me fez velha

E setenta e nove anos vão passados.

Frágil teia de aranha que hoje sou

Que mais dons esperarei que me sejam dados?

E aqui vou indo pela vida fora

Me arrastando feita uma criança,

Aprendendo a andar com o bordão,

Cativo agrilhoado, já sem esperança.

 

Maryam al-Ansari, (sécs. X-XI)

in Adalberto Alves,, O Meu Coração É Árabe -- A Poesia Luso-Árabe

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25
Set 16

APÓSTROFO

Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p'lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos -- e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçura buscavam nos peões -- sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali, o néctar; ora o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando... Assim tudo era -- e 'té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhados, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos -- e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.

 

Pedro Alvim, Os Jogadores de Xadrez (1986)

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