16
Mai 17

ÚLTIMO SONETO

Se me sobrevivesse, imperecida,

A memória da angústia que sofri

Na desordem do tempo em que vivi,

Já tinha fundamento a minha vida.

 

Debrucei-me na História, mas não vi

outra idade com esta parecida:

Tantos caminhos, tantos! e perdida,

A noção de chegar até aqui!

 

Árvore do passado! já não cabem

mais ilusões à sombra dos teus ramos...

E os teus frutos, agora, a nada sabem!

 

Poesia! onde me levas? onde vamos,

se as fórmulas antigas não nos abrem

O mistério da treva que sondamos!?

 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

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12
Abr 17

"o copo sobre a mesa"

o copo sobre a mesa

transparente

para ser cheio

da tua vida

espessa até ao cimo

 

Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

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05
Abr 17

...

«O que os poemas querem dizer, só eles sabem o que querem dizer.»

António Carlos Cortez, «Herberto Helder -- O nome mais obscuro»
JL-Jornal de Letras, Arte e Ideias,
Lisboa, 29 de Maio de 2013
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04
Abr 17

A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à míngua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma -- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra -- em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
-- Vencer às vezes é o mesmo que tombar --
E como ainda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

................................................................................................

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...


Mário de Sá-Carneiro, Dispersão (1914) /
Poemas Escolhidos (edição de Clara Rocha, s.d.)
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03
Abr 17

METODOLOGIA

Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
quer tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli, O Corpo de Atena (1984)
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02
Abr 17

"Se a morte fosse uma casa branca"

Se a morte fosse uma casa branca

e eu tivesse uma palavra breve e obscura.

Se a morte fosse um sono tão leve

que o murmúrio do vento a deixasse enlouquecida.

Se a morte fosse o instante entre o ir e voltar

uma pedra redonda e frágil atirada ao sono

do mundo.

Reunia os meus mortos, falava-lhes da sombra

que habita nas coisas

das malvas rodeando o poço.

Talvez a música do vento nos salgueiros

ou a canção das abelhas ardesse

intacta por dentro das palavras.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta (2001)

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28
Mar 17

LAVOISIER

Na Ana Teresa

nada se perde

tudo se queria

de todas as formas

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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27
Mar 17

NUNCA O AMOR FOI BREVE...

Nunca o Amor foi breve,
quando deu fruto.
(Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço!)

Sagre-o a Dor, nenhum Amor é vão.
Exulta, voz das ondas!
-- O seu Amor floriu, deu fruto,
como as árvores.

Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço.
Cintilantes do Sol, saltai ao Sol,
peixes do Mar.

nunca o Amor foi triste. Nem a Vida
foi menos bela.
Baila contente, lágrima!,
baila nos olhos dela.

Sebastião da Gama,
Pelo Sonho É que Vamos
(póst., 1953)
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26
Mar 17

CASCAIS

Acabava ali a Terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta árida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

 

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os céus turvos, anuviados,

O mar que incessante brama

Tudo ali era braveza

De selvagem natureza.

 

Aí, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal medrados,

Seco o rio, seca a fonte,

Ervas e matos queimados,

Aí nessa bruta serra,

Aí foi um Céu na Terra.

 

Ali sós no mundo, sós,

Santo Deus!, como vivemos!

Como éramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

 

Que longos beijos sem fim,

Que falar dos olhos mudo!

Como ela vivia em mim,

Como eu tinha nela tudo,

Minha alma em sua razão,

Meu sangue em seu coração!

 

Os anjos aqueles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Séculos na intensidade,

Por milénios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

 

Ai!, sim! foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça – amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ela deixou...

Mas como eu ninguém gozou.

 

Ninguém: que é preciso amar

Como eu amei – ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a que se há dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se anula perdida.

 

Ai, ai!, que pesados anos

Tardios depois vieram!

Oh!, que fatais desenganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

 

Lá onde de acaba a Terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquele sítio encantado.

Certo estou não conhecê-lo,

Tão outro estará mudado,

Mudado como eu, como ela,

Que a vejo sem conhecê-la!

 

Inda ali acaba a Terra,

Mas já o céu não começa;

Que aquela visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

Dessa agreste natureza.

 

Almeida Garrett, Fiolhas Caídas (1853

 

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21
Mar 17

"Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,"

Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,

arrasta um calçado encharcado,

um saco plástico que verte.

Quando lhe tocam, sujam-se,

mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.

Não tardará que o homem de farda lhe indique a

saída.

 

José  Emílio-Nelson, O Anjo Relicário (1994)

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