30
Set 13

PÁTRIA

Eu amo o meu País, embora sobre a Terra

Em cada homem veja apenas um irmão.

Nós somos como a esteva ou a urze da serra

Que só floresce bem no seu dorido chão...

 

Na Pátria, o coração é uma árvore. Cresce,

Prendendo-lhe a raiz e em flor sorrindo ao céu!

Quanto mais se ergue em flor, mais ele à raiz desce,

-- Mais ele beija e abraça o chão onde nasceu...

 

Bernardo de Passos

Portugal na Cruz / Líricas Portuguesas - 2.ª Série

edição de Cabral do Nascimento

publicado por RAA às 19:23 | comentar | favorito
30
Set 13

REGRESSO

O Poeta acordou de mãos vazias sobre o peito,

sem névoas de fuga no olhar espantado.

Lançaram-lhe urtigas nos linhos do leito

e em todos os frutos sabor a pecado.

 

Fechar-se de novo no armário, no escuro?

A esperar mãos boas e lenços macios?

Quem traga nos lábios violados segredos,

varrendo os espectros de angústias e medos

nos olhos sombrios?

 

Mas no armário havia um cheiro de trevas,

um cheiro de infância,

um cheiro de choro chorado baixinho,

de sonho e silêncio,

de bruma e distância.

 

No drama e na farsa, o Poeta exibiu-se.

(Importa-lhe, agora, quem o vaia ou exalta?)

No espelho manchado de sol e poeira,

assim que apagaram a luz da ribalta,

o Poeta busca a face verdadeira.

 

Deixem-no sozinho, com olhos sombrios,

sofrer esse instante sem sonho e sem venda,

não venham mãos boas nem lenços macios:

Que ninguém o entenda! Que ninguém o entenda!

 

Maria Manuela Couto Viana,

As Folhas de PoesiaTávola Redonda

edição de António Manuel Couto Viana (1988)

 

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20
Set 13
20
Set 13

A UM PEITO CRUEL

O bem passado que é? É mal presente.

O mal presente que é? É dor esquiva.

A dor esquiva que é? É morte viva.

A morte viva que é? É inferno ardente.

 

Com mal quem poderá viver contente,

Com dor quem haverá que alegre viva,

Com morte quem não tem pena excessiva,

Com inferno quem vive alegremente?

 

Por bem passado, mal vou padecendo,

Por alegria, dor, por vida, morte,

Por glória o mesmo inferno estou sofrendo.

 

Mas ah, peito cruel, que inda é mais forte

A dura condição que em ti estou vendo,

Que bem, que mal, que dor, que inferno ou morte.

 

António Barbosa Bacelar,

in Maria Ema Tarracha Ferreira,

Antologia Literária Comentada

Época Clássica - Século XVIII

publicado por RAA às 18:42 | comentar | favorito
16
Set 13
16
Set 13

Ibn Muqãna de Alcabideche


autora: María de Jesús Rubiera Mata

título:Ibn Muqãna de Alcabideche

tradução: Pepita Tristão

local: Cascais

editora: Associação Cultural de Cascais

ano: 1996

págs.: 35

dimensões: 20x15x0,3 cm. (brochado)

impressão: Gráfica de Coimbra

obs.

edição: 2.ª (1.ª ed., 1993)

tiragem: 1000

capa: Almeida Ferreira

observações: apresentação de José Manuel Martins Fernandes, presidente da Junta de Freguesia de Alcabideche; fac-símiles de alguns poemas no original árabe; duas fotos de César Cardoso, em apêndice.

 
publicado por RAA às 18:49 | comentar | favorito
04
Set 13
04
Set 13

ARRÁBIDA

O vento bate na face

De quem sobe àquela serra.

Vento que por ali erra

Bate na face a quem passe

Perto do cimo da serra.


Bate forte, o vento forte,

Chicoteando com força,

Ao vir das bandas do norte,

Chicoteando com força,

Dono da serra e da morte.


Consente, vento, que eu passe

Pelo alto desta serra

E não me batas na face

Porque, se mais não bastasse,

Basta eu ser da tua terra.


Não grites assim tão forte

Nem te exaltes contra mim,

Porque eu também sou do norte:

Donde tu vens, também vim,

Vento que ventas do norte.


Venho ver frei Agostinho;

Trazer ao Frade saudades

Das verdes terras do Minho:

Venho falar de saudades

Com o Poeta Agostinho.


Morreu o Sebastião

Que lhe falava, falava,

Das coisas do coração.

E o frade está desolado

Era quase como um irmão!...


Ele mora ali em cima

E a conversa não demora.

Venho falar-lhe do Lima,

Venho falar-lhe de Ponte,

E outras coisas que ele ignora.


Regresso depois ao Minho,

Vento que sopras do norte

E guardas Frei Agostinho.

Se um dia quiser recados,

Traze-los tu, vento norte?



Arrábida, 8/3/53


 

Júlio Evangelista

in António Mateus Vilhena e Daniel Pires,

A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa
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03
Set 13
03
Set 13

ADÃO E EVA...

2.

 

E, além de feliz, era a nudez

encontro de surpresa e de substracto

-- dentro palpites de sinais, e até

intento a consumar o corpo, em estado

de o espírito iluminar a tez

que também se enriquece à luz do tacto.

Ou a surpresa é dar-se o estar a ser

com o dentro a difundir o seu espaço

num paraíso de animais que vêm

ao encontro de serem nomeados.

 

Fernando Echevarría

Relâmpago#2,

Lisboa, 1998

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02
Set 13
02
Set 13

NAVIOS DE CARGA

Quinquerreme  de Ninive que vem da Ofir distante

remando volta ao porto na Palestina ensolarada,

com carga de marfim,

macacos e pavões,

sândalo, cedro, e vinho branco doce.

 

Majestoso galeão espanhol regressado do Istmo,

cruzando o trópico nas praias verdes de palmeiras,

com cargas de diamantes,

esmeraldas, ametistas,

topázio, canela e moidores de ouro.

 

Sujo cargueiro britânico com a chaminé incrustada de salitre

aos baldões no Canal por um dia de borrasca em Março,

com carga de carvão no Tyne,

carris, chumbo fundido,

madeira, ferragens, e pratos de lata ordinária.

 

John Masefield

in Jorge de Sena, Poesia do Século XX

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