18
Dez 13
18
Dez 13

QUATRO

(Em memória do grande Amigo

Joaquim Manuel Maia de Jesus)

 

A rosa vermelha última a que te prendeste

A rosa vermelha nas mãos duma menina

Aquela maçã que tu deste e não comeste

E nestes quatro versos está a tua sina

 

Partiu-se a lua num quarto desesperado

E entrou louca pelo quatro vidros do hospital

Quatro homens levaram teu corpo gelado

E a menina escondeu duas mãos no avental

 

Ali na encruzilhada de todos os ventos

Tristes contando às ondas tão triste nova

Braços de pinheiros bravos foram lamentos

À rosa dos ventos lendo a verdade toda

 

Só aquela cadela que corria ao luar

Anda a uivar pelos caminhos a tua morte

São quatro patas pelo chão a caminhar

Arrastando a raiva humana da tua sorte.

 

Matilde Rosa Araújo,

As Folhas de Poesia Távola Redonda

(edição de António Manuel Couto Viana, 1988)

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16
Dez 13
16
Dez 13

MERIDIONAL

CABELOS

 

 

Ó vagas de cabelo esparsas longamente,

Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,

E tendes o cristal dum lago refulgente

E a rude escuridão dum largo e negro mar;

 

Canelos torrenciais daquela que me enleva,

Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus

No báratro febril da vossa grande treva,

Que tem cintilações e meigos céus de luz.

 

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,

Quando ele estiver brando e livre de tufões,

E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos

E enchamos de harmonia as amplas solidões.

 

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos

Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom

Como um licor renano a fermentar nos copos

Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

 

E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,

Que tens o imenso bem de teres cabelos tais,

E os pisas desdenhoas, altiva, imperturbável,

Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

 

Consente que eu aspire esse perfume raro,

Que exalas da cabeça erguida com fulgor,

Perfume que estonteia um milionário avaro

E faz morrer de febre um louco sonhador.

 

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,

E vais na direcção constante do querer,

Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,

Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

 

E a tua cabeleira, errante pelas costas,

Suponho que te serve, em noites de Verão,

De flácido espaldar aonde te recostas

Se sentes o abandono e a morna prostração.

 

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos

Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor

Que antigamente deu, nos circos dos romanos,

Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.

 

............................................................................

............................................................................

 

Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,

Na vossa vastidão posso talvez morrer!

Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio

E quero asfixiar-me em ondas de prazer.

 

O Livro de Cesário Verde

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13
Dez 13
13
Dez 13

SHEN HSIU

Havia um monje

Que lustrava a careca

Para que sua cabeça

Fosse como se um espelho:

Refletisse tudo

E não guardasse nada.

 

 

Carlos Saldanha

in Heloisa Buarque de Hollanda,

26 Poetas Hoje (1975)

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12
Dez 13
12
Dez 13

P&R [pergunta e resposta] -- José Tolentino Mendonça

No entanto, o poema é feito de palavras.  Mas creio que é o silêncio que escreve o poema. As palavras estão lá para o testemunhar. Porque o poema não é a evidência, mas a interrogação, a sugestão, a lacuna, a fenda, a porta entreaberta, a possibilidade de viagem para cá e para lá dele. Nesse sentido, é sempre um sinal transitório, não um vestígio definitivo. O definitivo é justamente onde nos leva. Por isso o endereço do poema é o silêncio.

Entrevista a Maria Leonor Nunes,JL#1127, 11.XII.2013.

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10
Dez 13
10
Dez 13

CINEMATOGRAFIA

Cego, o comboio corre léguas,

Com furioso e soturno martelar:

Dum cavaleiro medievo,

Que só sabe vencer,

Lembra-me o galopar...

 

Tem pressa de levar-me

À Cidade do Prazer.

 

Lá fora, os véus do luar ondulam

Sobre os prados;

Passam tapetes imensos,

Amarelos e arroxeados,

Que parecem suspensos...

 

Chego, e o meu desejo se persuade

Do coquetismo da cidade.

 

Há ruas longas, lisas como braços,

Com vestidos de mosaicos,

Onde mulheres de perfil lendário,

E olhos arcaicos,

Se cruzam como peixes num aquário...

 

Quando esta perspectiva

No meu País dos Sonhos se alongava,

Já o Tédio, a meu lado,

O sangue me gelava:

 

Como ele vinha disfarçado!

 

Eis o meu corpo, filhas das Luxúrias,

Tratai-o qual inimigo:

Não esqueçais que o saber

E a lentidão dum ritual antigo

São a chave do prazer...

 

Alexandre de Aragão,

presença #18 (1929)

 

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09
Dez 13
09
Dez 13

POEMA SUBMERSO

olho: peixe-olho que

desvia a mão enguia

a pele lisa a

té o umbigo e logo

a flora de onde aflora

(na virilha) o barbirruivo a

ceso bruto an

fíbio: glabro

 

dedos tão tentáculos

e crispam e esmer

ilham dorso abaixo a

cima abaixo brilha

o esforço -- bravo

peixe tentando escapar      mas

 

 

ei-lo ao pé da frincha que

borbulha (esbugalha?)

roxo incha e mergulha em

brasa estala

e agora murcha

peixe-agulha e

vaza

vaza

 

Claudia Roquette-Pinto

in Claudio Daniel e Frederico Barbosa,

Na Virada do Século

-- Poesia de Invenção no Brasil (2002)

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06
Dez 13
06
Dez 13

NÓS O MUNDO

O mundo acabará quando não formos nós

o mundo: tudo existe

somente no olhar; gente passa

diante da esplanada no final de

julho quando ainda

os pulmões do verão inspiram o vapor

espesso do corpo como de alma um resíduo

e expiram o ar que seca o espírito:

este rodar de

gente e de estações

iludindo o sentido a que acedemos

devagar, tarde para

o conhecimento que poderia ter-nos

mudado a vida; prosseguimos

sem crença nessa via

olhando os corpos, sobretudo os

nossos plural que guarda

a dúvida de que a

extinção do corpo nos atinja

sozinhos, o mundo somos nós

di-lo a poesia recordando

os sentidos quando o mundo

perdiam, ou julgamos agora

que perdiam o que rapidamente

atravessava o desejo do dia: nada

o extingue, o desejo de que o fogo

a exacta metáfora seria, porém

não vou usá-la apagarei os

versos como um dia

os irá apagar o mundo reduzido

à minha consciência já vazia

 

Gastão Cruz,

A Moeda do Tempo (2006) /

/ O Escritor #22 (2007)

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05
Dez 13
05
Dez 13

ABAFADOR

Os teus olhos de berlinde

anémonas-do-mar

joguei ao "matas" com eles

só p'ra te sodomizar

 

Deixei-te a chorar na praia

a vulva cheia de sal

beijaste na boca a raia

num dia de Carnaval

 

Tomaste na mão os bilas

os berlindes ou os guelas

meteste na boca as pilas

os colhões, iscas com elas

 

Tens uma racha apertada

um cofre d'abafadores

tu gostas de marmelada

só na Ilha dos Amores

 

Os teus olhos de berlinde

anémonas-do-mar

pedem ao Rei de Melinde

p'ra na pachacha mamar

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

publicado por RAA às 13:45 | comentar | favorito
04
Dez 13
04
Dez 13

O RAPAZ DO TRAPÉZIO VOADOR

O rapaz do trapézio voador

chegou à cidade numa tarde de grande calor

entrou num café pediu um licor

 

pediu outro e outro ainda

ao todo sete licores

cada um da sua cor

cada qual da cor mais linda

 

ao sétimo licor

sentiu uma dor

teve um sorriso amarelo

que ninguém aplaudiu

deu três voltas e caiu.

 

António José Forte,

in Maria de Lourdes Varanda e Maria Manuela Santos,

Poetas de Hoje e de Ontem

-- do Século XIII ao XXI para os Mais Novos

publicado por RAA às 13:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito
02
Dez 13
02
Dez 13

AO RIGOR DE LISI

Mais dura, mais cruel, mais rigorosa

Sois, Lisi, que o cometa, rocha ou muro

Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,

Que o Céu vê, cerca o Mar, a Terra goza.

 

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa

Que a perla, rosa, Sol, ou jasmim puro,

Pois por vós fica feio, pobre e escuro,

Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

 

Não viu tão doce, plácida e amena,

(Brame o Mar, trema a Terra, o Céu se agrave),

Luz o Céu, ave a Terra, o Mar sirena.

 

Vós triunfais de sirena, luz e ave,

Claro Sol, perla fina, rosa amena,

Mor cometa, árduo muro e rocha grave.

 

Jerónimo Baía

in Maria Ema Tarracha Ferreira,

Antologia Literária Comentada

-- Época Clássica. Século XVII

publicado por RAA às 19:38 | comentar | favorito