31
Out 14
31
Out 14

JOSEFINA BAKER

De qualquer ilha escondida

no quente mar colorista,

veio essa Baker trazida

pla mão da 5.ª avenida:

o roteiro fantasista.

 

Essa negra Josefina

deixou Colombo vexado,

ligando a terra-menina,

que é branca e greco-latina,

ao continente sobrado...

 

Um demónio de negrura:

trópico aroma se exala.

Seu corpo a imagem figura

de um brônzeo clima, em tontura,

cercando à noite a senzala.

 

O ritmo antigo é perdido,

outro mundo volverá.

Nesta Europa sem sentido

a Baker marca o ruído

e o mediano o Dekobra.

 

Façam batuque, batuque,

plantem na Europa o Haiti.

Caliça que a alma amachuque,

que caia o tecto de estuque

no senhor de Valéry.

 

Velha casa brazonada,

deu-lhe o vento de ruína.

A celta flor desfolhada,

morreu de tédio pisada

aos pés dessa Josefina.

 

Luís de Montalvor,

presença # 19,

Março 1929

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30
Out 14
30
Out 14

FUI À BEIRA DO MAR

Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alrgre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a Alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Detei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo

 

José Afonso

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28
Out 14

NO COMBOIO DESCENDENTE

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,

Uns por verem rir os outros

E os outros sem ser por nada

No comboio descendente

De Queluz à Cruz Quebrada...

 

No comboio descendente

Vinham todos à janela,

Uns calados para os outros

E os outros a dar-lhes trela

No comboio descendente

De Cruz Quebrada a Palmela...

 

No comboio descedente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E os outros nem sim nem não

No comboio descendente

De Palmela a Portimão...

 

Fernando Pessoa,

in Poetas de Hoje e de Ontem

-- do Século XIII ao XXI

para os mais novos

(edição: Maria de Lourdes Varanda

& Maria Manuela Santos)

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28
Out 14

SECA

É de água a sede da paisagem

que o som da música enlanguesce.

Pedem meus olhos a miragem

de branca nuvem, fria aragem

-- virgem morena que adolesce.

 

É de água a sede deste monte

em sal e areia acontecido.

Venha a ternura de uma fonte!

Lírico som que em mim desponte

e saiba a céu e a ter vivido.

 

Daniel Filipe, A Ilha e a Solidão

(in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban I, 1975)

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17
Out 14
17
Out 14

"Os sábios e os filósofos mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância."

Os sábios e os filósofos mais ilustres caminharam nas trevas da ignorância.

E, todavia, eles eram os luminares da sua época.

Que fizeram?

Pronunciaram algumas frases confusas e depois adormeceram para sempre.

 

Omar Khayyam, Rubaiyat

(versão de Fernando Castro)

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14
Out 14
14
Out 14

JOGOS FLORAIS I

Minha terra tem palmeiras

onde canta o tico-tico.

Enquanto isso o sabiá

vive comendo o meu fubá.

 

Ficou moderno o Brasil

ficou moderno o milagre:

a água já não vira vinho,

vira direto vinagre.

 

Antônio Carlos de Brito,

in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1976)

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10
Out 14

ENCANTAÇÃO DO TIGRE

o

mar;

digo: tigre;

pupilas de verde fúria;

sua tígricas vagas, garras,

punhais esfervilhantes

em arcadas de espuma, presas aguçadas;

o fluir e o refluir de suas águas

em ondulação, tigrinoso emblema da fera,

cantabile alabarda em jaspe e luzidia prata urdida,

nos seduz como selvagem dança sarracena,

seus lenços de tépida alfazema escura;

dissolvidos em seu puro olhar

de algas em si algas, najas, corais

em opalino alvoroço musgoso,

não mais resistimos, estancados na argêntea areia,

e entramos em suas águas de água

sob o sol: aí cessamos.

 

Claudio Daniel,

in Na Virada do Século -- Poesia de Invenção no Brasil (2002)

(edição de Claudio Daniel e Frederico Barbosa)

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10
Out 14

PROVA D'AMOR

Minete é prova d'amor

se tu o souberes provar

mete a língua com cuidado

para o amor não estragar

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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09
Out 14
09
Out 14

SOLO DE VIOLINO

Se acordo e relembro o que sonho,

Maria, não saias daqui!

-- Que monstro barbudo e bisonho

Em sonhos medonhos eu vi!

Às vezes não lembro o que sonho...

 

A lua fugia do barco

E o barco roçava um salgueiro...

Eu chorei e os sapos do charco

Gritaram! E eu vi o barqueiro

À lua, caindo do barco...

 

A água gemia harmonia

E o barco seguia sem rumo;

À proa, de pedras par'cia

Meu corpo de lívido aprumo.

 

..................................................

 

Às vezes não lembro o que sonho.

Se lembro... não saias, Maria!

Sòzinho parece medonho

Meu sonho de barco sem rumo.

 

Olavo d'Eça Leal,

presença #12,

9 de Maio de 1928

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06
Out 14
06
Out 14

MULHER

Não saíste, Mulher, inteiramente,

Das mãos de Deus! A sede e a formosura

Dos homens completam a figura

Divina que tu és, -- eternamente.

 

O amor do homem, na ansiedade ardente,

Vestiu de glória a mocidade pura

Da tua vida. Para ti procura

Um canto o Poeta, infatigàvelmente.

 

Sem descanso, o pintor, numa ansiedade,

Às tuas formas dá actividade,

Para dornar teu corpo alvo e risonho.

 

Jardins, o mar e a terra abrem o seio,

Dão-te oiro, flores, pérolas, enleio...

 

-- És metade Mulher, metade Sonho!

 

Rabindranath Tagore,

 

Poesias de Tagore (O Músico e o Poeta)

(versão de Augusto Casimiro)

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