27
Nov 17
27
Nov 17

EPIGRAMA

O cego deu à manivela

Da velha e triste pianola,

Que era a alegria da vila;

Mas já ninguém vem à janela.

-- Pois, vindo, davam-lhe esmola...

E, ocultos, podem ouvi-la. 

 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

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23
Nov 17
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Nov 17

VEJAM BEM

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

Quem lá vem

Dorme à noite

Ao relento

Na areia

Dorme à noite

Ao relento do mar

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

E uma estátua

De febre

A arder

 

Anda alguém

Pela noite

De breu

À procura

E não há

Quem lhe queira

Valer

 

Vejam bem

Daquele homem

A fraca

Figura

Desbravando

Os caminhos

Do pão

 

E se houver

Uma praça

De gente

Madura

Ninguém vem

Levantá-lo

Do chão

 

Vejam bem

Que não há

Só gaivotas

Em terra

Quando um homem

Se põe

A pensar

 

José Afonso.

do livro homónimo,

coordenado por José Viale Moutinho (1972)

 

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22
Nov 17
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Nov 17

AMOR A METRO

Dizes-me que me falta sexo

Mentirosa

Faltam-me apenas

quinze centímetros d'amor

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (s.d.)

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17
Nov 17
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Nov 17

OUVE, MEU CÃO

Ouve, meu cão,

Que há tanto tempo vejo

No teu certo dia a dia:

Uma coisa queria saber,

Tão fundo que pensasse

Que a sabia.

Como foi conseguido

Seres assim tão perfeito?

Como podes não falhar,

Mesmo a gente falha e sem jeito

E a gente que falta tanto,

Não faltar?

Maximiano Gonçalves, Ouvir a Palavra (2017)

publicado por RAA às 13:06 | comentar | favorito
16
Nov 17
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Nov 17

"no ano em que eu era comido pelo escorbuto"

no ano em que eu era comido pelo escorbuto

chegavam as tuas enviadas com limões de oiro

 

tu própria ias dessedentando a boca da viola

para salvar-me o canto

 

eis a ditosa amada, escrevi então

minha pátria

 

Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

publicado por RAA às 13:11 | comentar | favorito
15
Nov 17
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Nov 17

POEMETO IRÔNICO

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

 

Curiosidade sentimental

Do seu aroma, da sua pele.

Sonhas um ventre de alvura tal,

Que escuro o linho fique ao pé dele.

 

Dentre os perfumes sutis que vêm

Das suas charpas, dos seus vestidos,

Isolar tentas o odor que tem

A trama rara dos seus tecidos.

 

Encanto a encanto, toda a prevês.

Afagos longos, carinhos sábios,

Carícias lentas, de uma maciez

Que se diriam feitas por lábios...

 

Tu te perguntas, curioso, quais

Serão seus gestos, balbuciamento,

Quando descerdes na espirais

Deslumbradoras do esquecimento...

 

E acima disso, buscas saber

Os teus institntos, suas tendências...

Espiar-lhe na alma por conhecer

O que há de sincero nas aparências.

 

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

publicado por RAA às 13:45 | comentar | favorito
06
Nov 17
06
Nov 17

"bichos vinham dos"

bichos vinham dos

movimentos da terra e

trocavam comigo o olhar

por mãos quentes, água,

luz e pequenos espaços onde

o corpo pousava melhor

 

Valter Hugo Mãe, O Resto da Minha Alegria (2003)

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