BERNARDO SOARES

Nenhuma fotografia fará subir a chama

da paisagem para lá da janela do terceiro

andar deste prédio. O real é uma abstracção

inútil, uma eternidade a que tivessem

 

cortando a sua face de sonho, um coração

onde nada pesa que não seja o peso

leve dos sentidos. A vida toda é este mover

das coisas mais próximas, os ombros

 

a bússola de viagem o desenho a tinta-da-china

de pequenos barcos coloridos

algumas vozes longínquas que logo fazem

viver as suas formas substantivas: pobre

 

de quem vê o que seus olhos vêem. Às vezes

é como se tudo tivesse uma alma um

destino superior às vogais do seu nome

um espaço onde a eternidade vem para morrer.

 

José Carlos Barros

publicado por RAA às 11:21 | comentar | favorito