A DOENÇA DA PEDRA

Os barcos padeciam da doença da pedra:

estavam imóveis sobre os ancoradouros

como se não existisse a tentação do mar.

Tinham cordas enrodilhadas, remos ensarilhados,

velame estendido no convés, e, para além disso,

um imenso vazio a inundar os porões e as pontes.

Apodreciam, pacientes, à míngua de vento,

saudoso do embalo das ondas,

desnorteados pela falta de rota.

Eram barcos com uma embriaguez de vento

erguida na proa e uma coroa de algas

levantada nos mastros. Vinham altivos

do mar de outros séculos, arrecadando no bojo

um tesouro de vozes, uma bravura corsária,

uma cobiça de oiro. Deitava-me neles

com um sonho enredado nas malhas que tiram

sustento das águas e com um mapa

para sempre guardado na febre dos olhos.

 

José Jorge Letria

publicado por RAA às 20:00 | comentar | favorito