o princípio de m. c. escher (I)

prelúdio e figa sobre um tema popular

 

a)

 

lá sai uma, saem as duas

as três pombas do papel

saem do bico da pena

 

que nesta folha as escreve

e que as penas lhes alisa

sem acrescentar as minhas,

 

ganham força, ganham força,

e aos poucos se desenleiam,

já se equilibram, já voam,

descrevem uma parábola

dum branco intenso no azul,

vêm pousar no peitoril,

de patinhas saltitantes

pulam pra cima da mesa,

fazem dum livro degrau

e regressam ao papel,

entram na caligrafia

que as prende no seu cordel,

letra a letra, linha a linha,

outra vez palavras planas

que atravessam toda a página

pra voltarem a soltar-se

na chegada ao outro lado

e não há ponto final

 

Vasco Graça Moura

publicado por RAA às 19:56 | comentar | favorito