CINZEIRO

À noute quando escrevo

Tenho fantasias

Que não chego a escrever

Nem conto a ninguém.

 

Esta, por exemplo,

De ver um paquete

No meu cinzeiro

De feitio oblongo!

 

Ponho nele, de pé,

As pontas dos cigarros.

São mastros

E chaminés fumegantes...

 

Os fósforos

São carregamento

E a cinza

São as cinzas das fornalhas...

 

Deito nele

Pedacinhos de papel que eu rasgo,

-- Restos de algum poema...

São cartas para longe.

 

Voam à roda do meu cinzeiro

Pequeninos insectos tropicais,

Companheiros nocturnos

Dos poetas da minha terra.

 

São os pássaros marinhos,

As gaivotas,

Que vêm espreitar

De perto o paquete.

 

Empurro-o com a mão

E o paquete lá vai,

Com o rumo traçado

Através do Atlântico.

 

Lá vai!

Os passageiros da primeira

Passeiam no «deck»

Ou jogam o «bridge».

 

E a rapariga loura

Estira-se indolente

Na cadeira de lona

A ler um romance...

 

No convés da terceira classe,

Um emigrante qualquer

Debruçou-se na borda

Olhando o horizonte...

Sou eu.

 

Jorge Barbosa

publicado por RAA às 15:19 | comentar | favorito