OS MEDRONHEIROS

Nos braços verdes, nus,

pousou um bando,

verde, leve,

d'asas glaucas

anunciando

o ocaso do inverno,

Cavalgada de Niebelungos que no longe se perde.

 

No estio,

o arnês,

do sol

se desfez

num chuveiro 

d'oiro mole;

em cada gomo

-- um bago d'oiro

a tentar-me!

 

Quem me dera,

medronheiro,

como tu,

dar um fruto

que pudesse embriagar-me!

 

Escuto,

das seivas o corpo ébrio,

todo nu,

bailando no silêncio

rumoroso da floresta,

onde o vento canta

-- a eterna canção da gesta.

 

Os medronhos,

um a um,

vão caindo,

terminou o festim.

Nas taça, o vinho,

já tem sono,

já tem sonhos de mim.

 

E o outono,

pelo oiro do caminho,

vindo,

vem bailando

na dança-dos-véus,

dança das névoas.

 

Terminou o festim.

Principia a saturnália das folhas mortas.

 

António de Navarro

publicado por RAA às 00:06 | comentar | favorito