"É pela tarde, quando a luz esmorece"

É pela tarde, quando a luz esmorece

E as ruas lembram singulares colmeias,

Que a alegria dos outros me entristece

E aguço o faro para as dores alheias.

 

Um que, impaciente, para o lar regresse,

As viaturas que cruzam cheias

Dos que fazem da vida uma quermesse,

São para mim, faminto, odor de ceias.

 

Sentimento cruel de quem se afasta,

Por orgulho repele, e se desgasta

No esforço de fugir à multidão.

 

Mas castigo de quem, por imprudente,

Já não pode deter-se na vertente

Que vai da liberdade à solidão.

 

Reinaldo Ferreira

publicado por RAA às 15:57 | comentar | favorito