XVII

     Mário de Andrade, intransigente pacifista, internacionalista amador, comunica aos camaradas que bem contra-vontade, apesar da simpatia dele por todos os homens da terra, dos seus ideais de confraternização universal, é atualmente soldado da República, defensor interino do Brasil.

 

E marcho tempestuoso noturno

Minha alma cidade das greves sangrentas,

Inferno fogo INFERNO em meu peito,

Insolências, blasfêmias, bocagens na língua.

 

Meus olhos navalhando a vida detestada.

 

A vista renasce na manhã bonita.

Paulicéia lá em baixo epiderme áspera

Ambarizada pelo sol vigoroso,

Com o sangue do trabalho correndo nas veias das ruas.

    Fumaça bandeirinha.

    Torres. 

    Cheiros.

    Barulhos

    E fábricas...

    Naquela casa mora,

    Mora, ponhamos: Guaraciaba...

    A dos cabelos fogaréu!...

    Os bondes meus amigos íntimos

    Que diariamente me acompanham pro trabalho...

    Minha casa...

    Tudo caiado de novo!

   É tão grande a manhã!

  É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!

 

A própria dor é uma felicidade...

 

Mário de Andrade

publicado por RAA às 23:40 | comentar | favorito