"Suspiros inflamados, que cantais"

Suspiros inflamados, que cantais

A tristeza com que eu vivi tão ledo,

Eu mouro e não vos levo, porque hei medo

Que ao passar do Lete vos percais.

 

Escritos para sempre já ficais

Onde vos mostrarão todos co dedo,

Como exemplo de males; que eu concedo

Que para aviso de outros estejais.

 

Em quem, pois, virdes falsas esperanças

De Amor e da Fortuna, cujos danos

Alguns terão por bem-aventuranças,

 

Dizei-lhe que os servistes muitos anos,

E que em Fortuna tudo são mudanças,

E que em Amor não há senão enganos.

 

Luís de Camões

publicado por RAA às 02:53 | comentar | favorito