"Ela, a Poesia, hoje"

Ela, a Poesia, hoje,

Como que foge

De si mesma e se dói

De ter sido algum dia

Meramente poesia.

 

Erra,

Solitária e solene,

Nos caminhos da terra,

E vitupera o céu

E o que ele encerra:

-- Ah! morra! Ah! esqueça Orfeu!

 

Canta a grilheta, a enxada

E a madrugada

Dos dias que hão-de vir,

E como frutos, cair

Em nossas mãos...

 

Fala no imperativo,

E tem por vocativo

-- Irmão! Irmãos!

 

Mas longe,

E perto, porque em nós,

Onde uma fonte canta

Uma toada clara,

Um fauno sabe e ri,

Na pedra gasta e escura,

Um fim de riso

De ironia rara...

 

Reinaldo Ferreira

publicado por RAA às 11:39 | comentar | favorito