"Um dia mais, sou menos que era"

Um dia mais, sou menos que era

há momentos: rasurei o rosto

a barba que me embuça

sem imaginação nem sono.

 

Mas ela não se rende. Continua

a vegetar, raiz no sangue,

a mancha que parda punge

na máscara. E derrama-se.

 

Esta chaga não dói, ao supurar

contra o metal contrário:

é um mênstruo inesgotável,

servil, embora másculo.

 

Narcisismo ancestral, a matutina

perseguição aos pêlos,

enquanto o olhar comina o insulto

dos anos que fluem sob o espelho.

 

A pele não repulsa nunca a lâmina:

nem ao ser já pedra musguenta

e, ao despedi-la, outros receiem

que dela ainda esta erva cresça.

 

José Bento

publicado por RAA às 11:31 | comentar | favorito