PAI

O pai quando ressona

é um tractor que lavra o sono

inquieto da casa que se abriu e fechou

para o receber ao fim da tarde

quando chega

de embrulhos nas mãos chaves sacos

de laranjas e jornais atrasados.

De mão na dobra do lençol

o pai promete acordar

para sair de novo ao amanhecer

porque a casa não lhe pertence

talvez a rua talvez um pedaço da rua

que lhe paga os passos e lhe reembolsa a liberdade.

O pai tem nas mãos o exemplo das mãos

e tem histórias da vida debaixo

das unhas cheias de óleo

com que lubrificou meus ossos em crescimento

me fez querer ser homem

dando-me daquelas mãos manchadas

machados

de enfrentar a coragem.

 

Ricardo Ferreira de Almeida

in Viola Delta, vol. XXX

publicado por RAA às 13:23 | comentar | favorito