ARRÁBIDA

O vento bate na face

De quem sobe àquela serra.

Vento que por ali erra

Bate na face a quem passe

Perto do cimo da serra.


Bate forte, o vento forte,

Chicoteando com força,

Ao vir das bandas do norte,

Chicoteando com força,

Dono da serra e da morte.


Consente, vento, que eu passe

Pelo alto desta serra

E não me batas na face

Porque, se mais não bastasse,

Basta eu ser da tua terra.


Não grites assim tão forte

Nem te exaltes contra mim,

Porque eu também sou do norte:

Donde tu vens, também vim,

Vento que ventas do norte.


Venho ver frei Agostinho;

Trazer ao Frade saudades

Das verdes terras do Minho:

Venho falar de saudades

Com o Poeta Agostinho.


Morreu o Sebastião

Que lhe falava, falava,

Das coisas do coração.

E o frade está desolado

Era quase como um irmão!...


Ele mora ali em cima

E a conversa não demora.

Venho falar-lhe do Lima,

Venho falar-lhe de Ponte,

E outras coisas que ele ignora.


Regresso depois ao Minho,

Vento que sopras do norte

E guardas Frei Agostinho.

Se um dia quiser recados,

Traze-los tu, vento norte?



Arrábida, 8/3/53


 

Júlio Evangelista

in António Mateus Vilhena e Daniel Pires,

A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa
publicado por RAA às 19:28 | comentar | favorito