REGRESSO

O Poeta acordou de mãos vazias sobre o peito,

sem névoas de fuga no olhar espantado.

Lançaram-lhe urtigas nos linhos do leito

e em todos os frutos sabor a pecado.

 

Fechar-se de novo no armário, no escuro?

A esperar mãos boas e lenços macios?

Quem traga nos lábios violados segredos,

varrendo os espectros de angústias e medos

nos olhos sombrios?

 

Mas no armário havia um cheiro de trevas,

um cheiro de infância,

um cheiro de choro chorado baixinho,

de sonho e silêncio,

de bruma e distância.

 

No drama e na farsa, o Poeta exibiu-se.

(Importa-lhe, agora, quem o vaia ou exalta?)

No espelho manchado de sol e poeira,

assim que apagaram a luz da ribalta,

o Poeta busca a face verdadeira.

 

Deixem-no sozinho, com olhos sombrios,

sofrer esse instante sem sonho e sem venda,

não venham mãos boas nem lenços macios:

Que ninguém o entenda! Que ninguém o entenda!

 

Maria Manuela Couto Viana,

As Folhas de PoesiaTávola Redonda

edição de António Manuel Couto Viana (1988)

 

publicado por RAA às 13:22 | comentar | favorito