CANÇÃO DUMA SOMBRA

Ah, se não fosse a névoa da manhã

E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,

                    Eu não era o que sou.

 

Se não fosse esta fonte, que chorava,

E como nós cantava e que secou...

E este sol que eu comungo de joelhos,

                     Eu não era o que sou.

 

Ah, se não fosse este luar, que chama

Os espectros à vida e se inflitrou,

Como fluido mágico, em meu ser,

                    Eu não era o que sou.

 

Ah, se não fosse o vento, que embalou

Meu coração e as nuvens, nos seus braços,

                    Eu não era o que sou.

 

Sem esta terra funda e fundo rio,

Que ergue as asas e sobe, em claro voo;

Sem estes ermos montes e arvoredos,

                    Eu não era o que sou.

 

Teixeira de Pascoais,

/ Antologia Poética

(edição de Ilídio Sardoeira)

publicado por RAA às 13:59 | comentar | favorito