CINEMATOGRAFIA

Cego, o comboio corre léguas,

Com furioso e soturno martelar:

Dum cavaleiro medievo,

Que só sabe vencer,

Lembra-me o galopar...

 

Tem pressa de levar-me

À Cidade do Prazer.

 

Lá fora, os véus do luar ondulam

Sobre os prados;

Passam tapetes imensos,

Amarelos e arroxeados,

Que parecem suspensos...

 

Chego, e o meu desejo se persuade

Do coquetismo da cidade.

 

Há ruas longas, lisas como braços,

Com vestidos de mosaicos,

Onde mulheres de perfil lendário,

E olhos arcaicos,

Se cruzam como peixes num aquário...

 

Quando esta perspectiva

No meu País dos Sonhos se alongava,

Já o Tédio, a meu lado,

O sangue me gelava:

 

Como ele vinha disfarçado!

 

Eis o meu corpo, filhas das Luxúrias,

Tratai-o qual inimigo:

Não esqueçais que o saber

E a lentidão dum ritual antigo

São a chave do prazer...

 

Alexandre de Aragão,

presença #18 (1929)

 

publicado por RAA às 18:42 | comentar | favorito