04
Abr 17

A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à míngua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma -- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra -- em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
-- Vencer às vezes é o mesmo que tombar --
E como ainda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

................................................................................................

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...


Mário de Sá-Carneiro, Dispersão (1914) /
Poemas Escolhidos (edição de Clara Rocha, s.d.)
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03
Abr 17

METODOLOGIA

Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
quer tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli, O Corpo de Atena (1984)
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02
Abr 17

"Se a morte fosse uma casa branca"

Se a morte fosse uma casa branca

e eu tivesse uma palavra breve e obscura.

Se a morte fosse um sono tão leve

que o murmúrio do vento a deixasse enlouquecida.

Se a morte fosse o instante entre o ir e voltar

uma pedra redonda e frágil atirada ao sono

do mundo.

Reunia os meus mortos, falava-lhes da sombra

que habita nas coisas

das malvas rodeando o poço.

Talvez a música do vento nos salgueiros

ou a canção das abelhas ardesse

intacta por dentro das palavras.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta (2001)

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28
Mar 17

LAVOISIER

Na Ana Teresa

nada se perde

tudo se queria

de todas as formas

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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27
Mar 17

NUNCA O AMOR FOI BREVE...

Nunca o Amor foi breve,
quando deu fruto.
(Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço!)

Sagre-o a Dor, nenhum Amor é vão.
Exulta, voz das ondas!
-- O seu Amor floriu, deu fruto,
como as árvores.

Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço.
Cintilantes do Sol, saltai ao Sol,
peixes do Mar.

nunca o Amor foi triste. Nem a Vida
foi menos bela.
Baila contente, lágrima!,
baila nos olhos dela.

Sebastião da Gama,
Pelo Sonho É que Vamos
(póst., 1953)
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26
Mar 17

CASCAIS

Acabava ali a Terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta árida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

 

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os céus turvos, anuviados,

O mar que incessante brama

Tudo ali era braveza

De selvagem natureza.

 

Aí, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal medrados,

Seco o rio, seca a fonte,

Ervas e matos queimados,

Aí nessa bruta serra,

Aí foi um Céu na Terra.

 

Ali sós no mundo, sós,

Santo Deus!, como vivemos!

Como éramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

 

Que longos beijos sem fim,

Que falar dos olhos mudo!

Como ela vivia em mim,

Como eu tinha nela tudo,

Minha alma em sua razão,

Meu sangue em seu coração!

 

Os anjos aqueles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Séculos na intensidade,

Por milénios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

 

Ai!, sim! foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça – amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ela deixou...

Mas como eu ninguém gozou.

 

Ninguém: que é preciso amar

Como eu amei – ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a que se há dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se anula perdida.

 

Ai, ai!, que pesados anos

Tardios depois vieram!

Oh!, que fatais desenganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

 

Lá onde de acaba a Terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquele sítio encantado.

Certo estou não conhecê-lo,

Tão outro estará mudado,

Mudado como eu, como ela,

Que a vejo sem conhecê-la!

 

Inda ali acaba a Terra,

Mas já o céu não começa;

Que aquela visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

Dessa agreste natureza.

 

Almeida Garrett, Fiolhas Caídas (1853

 

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21
Mar 17

"Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,"

Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,

arrasta um calçado encharcado,

um saco plástico que verte.

Quando lhe tocam, sujam-se,

mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.

Não tardará que o homem de farda lhe indique a

saída.

 

José  Emílio-Nelson, O Anjo Relicário (1994)

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06
Fev 17

O VELHO CASTELO -- OS ADEUSES DO POETA (Giorgio De Chirico)

Quando este silêncio

se instala e o caminho

parece tomado de

 

uma névoa intensa,

tão intensa que nos cega...

quando candeia alguma

 

se insinua... regresso

ao teu rosto, aos olhos

teus que tudo iluminam,

 

ao teu corpo, ao menino.

ao luar, aos anjos, às

palavras, inevitáveis

 

lugares deste encontro,

deste dédalo solar

que o jacto de sangue é.

 

Mário Avelar, Pelas Mãos de Mussorgsky numa Galeria com Anjos (2000)

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28
Jan 17

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abu Bakr,

Os queridos lugares de Silves

E diz-me se deles a saudade

É tão grande quanto a minha.

Saúda o palácio dos Balcões

Da parte de quem nunca os esqueceu.

Morada de leões e de gazelas

Salas e sombras onde eu

Doce refúgio encontrava

Entre ancas opulentas

E tão estreitas cinturas!

Mulheres níveas e morenas

Atravessavam-me a alma

Como brancas espadas

E lanças escuras

Ai quantas noites fiquei,

Lá no remanso do rio,

Nos jogos do amor

Com a da pulseira curva

Igual aos meandros da água

Enquanto o tempo passava...

E me servia de vinho:

O vinho do seu olhar

Às vezes o do seu copo

E outras vezes o da boca.

Tangia cordas de alaúde

E eis que eu estremecia

Como se estivesse ouvindo

Tendões de colos cortados.

Mas retirava o seu manto

Grácil detalhe mostrando:

Era o ramo de salgueiro

Que abria o seu botão

Para ostentar a flor.

 

Al-Mu'tamid,

in Adalberto Alves, O Meu Coração É Árabe (1987)

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16
Jan 17

DA DENSIDADE E DA TRANSPARÊNCIA

Vai-se formando de tudo a densidade

mãos que apertamos olhos fulvos

que algum dia se entornaram verdes

e de tão verdes anémonas sem fundo.

 

E de tudo também a transparência

em breves segundos se insinua

como aqueles corpos que fugindo

o nosso olhar e desejo desabitam.

 

Em desafio ao sol a todas as estrelas

numa ronda de encontro e despedida

vai a roda da vida nos passando.

 

Por mais vigilantes e atentos ao acaso

algo de nós foge com a única promessa

de a luz que vemos não acabar nunca.

 

José Calrlos González, Biofonias

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