A UM CRUCIFIXO

Não se perdeu teu sangue generoso,

Nem padeceste em vão, quem quer que foste.

Plebeu antigo, que amarrado ao poste

Morreste como vil e faccioso.

 

Desse sangue maldito e ignominioso

Surgiu armada uma invencível hoste...

Paz aos homens e guerra aos deuses! -- pôs-te

Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...

 

Do pobre que protesta foste a imagem:

Um povo em ti começa, um homem novo:

De ti data essa trágica linhagem.

 

Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,

Lembraremos, herdeiros desse povo,

Que entre nossos avós se conta Cristo.

 

Antero de Quental,

in Urbano Tavares Rodrigues, Os Poemas da Minha Vida (2.ª ed., 2005)

publicado por RAA às 19:53 | comentar | favorito