CANÇÃO VERDE

A minha canção é verde

Sempre de verde a cantei!

De verde cantei ao povo

E fui de verde vestido

Cantar à mesa do Rei!

 

Porque foi verde o meu canto?

Porque foi verde?

                               -- Não sei...

 

Verde, verde, verde, verde,

Verde, verde, em vão cantei!

-- Lindo moço! disse o Povo.

-- Verde moço! disse El-rei.

 

Porque me chamaram verde?

Porque foi? Porquê?

                               -- Não sei...

 

Tive um amor -- Triste sina!

Amar é perder alguém...

Desde então ficou mais verde

Tudo em mim: a voz, o olhar,

Cada passo, cada beijo...

E o meu coração também!

 

Coração! porque és tão verde?

Porque és verde assim também?

 

Deu-me a vida, além do luto,

Amor à margem da lei...

Amigos são inimigos!

-- Paga-me!, gritaram todos.

Só eu de verde fiquei.

 

Porque fiquei eu de verde?

Porque foi isto?

                              -- Não sei...

 

A minha canção é verde

-- Canção à margem da lei...

Verde, ingénua, verde e moça,

Como a voz desta canção

Que, por meu mal vos cantei...

 

A minha canção é verde,

Verde, verde, verde, verde...

Mas... porque é verde?

                                -- Não sei...

Pedro Homem de Melo,

in As Folhas de Poesia Távola Redonda

(edição de António Manuel Couto Viana)

publicado por RAA às 18:18 | comentar | favorito