IN MEMORIAM

Requiem aeternum dona eis,

                                                                                                                                                                           

Domine, et lux perpetua

                                                                                                                                                                                          luceat eis.»

 

Que a terra lhe seja pesada.

Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,

Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta

E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento

E arrase com ela a memória gravada

Na lembrança demente dos que o choram.

 

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,

Cheio de ossos e uivos

E garfos aguçados

E que reparta o medo com o primeiro intruso

E o vento se insinue pelas portas fechadas

E rasteje no quarto

E suba pela cama

E lhe entre no olhar como estiletes de aço

Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,

Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,

Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

 

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,

Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

 

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,

O gritem no deserto as gargantas com sede,

O murmurem no escuro os mendigos com frio,

O clamem na cidade as crianças com fome,

O soluce o amante de súbito impotente,

O maldigam no exílio as almas sem descanso

 

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,

A pálpebra doente,

O vómito de sangue..

 

Que o gesto que era o seu o imitem as mães

Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,

O desenhem a lume os braços amputados,

O perpetue o esgar dos jovens mutilados,

O dance o condenado que morre na fogueira.

 

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco

A arma do ladrão

A marca do vencido.

 

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,

A máscara de sal,

A vingança do pobre.

E que o Exterminadsor, no seu trono de enxofre,

O faça tilintar os guizos da tortura

Até que o mundo o esqueça

E mais ninguém o chore.

 

José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) /

/ Obra Poética

publicado por RAA às 13:14 | comentar | favorito