O MEU RISO

Bem de meus olhos, pobres olhos nunca enxutos,

Por onde corre a minha mágoa em brando rio,

Aonde vem pousar o teu olhar macio

Que tem o bom dulçor dos mais suaves frutos.

 

Quando o Coveiro, um dia, arremessar, sombrio,

O teu corpo gentil aos vermes resolutos,

De lá, da esfera azul dos astros impolutos,

Verás então, Mulher, verás como eu me rio…

 

Um riso contrafeito, uma ironia à toa…

Linda Mulher honesta e frágil como um cicio…

Que eu não te quero a ti para noivar, perdoa!

 

Porque o meu lábio beijou a Podridão,

Nas alcovas do Mal onde germina o Vício,

Onde a alma é um farrapo e o Amor uma traição!

 

José Duro,

Fel (1898)

publicado por RAA às 11:59 | comentar | favorito