REGRESSO

A rua é ainda a mesma. As mesmas flores,

o mesmo sol que nada nos recorda.

O mesmo sonho triste e papa-açorda

em que se esvaem as humanas dores!

 

Nada mudou nestes dois anos. Só

tua casta presença me falece.

Relembro, a medo, a solitária prece,

que o teu vulto sereno me ensinou.

 

Tão pouco peço, Deus! Entanto, os dias

começam e acabam como outrora...

Na velha casa, uma outra virgem mora;

alguém relê os livros que tu lias!

 

A blusa que vestias -- verde-mar,

como a recordo! -- era um segredo esquivo,.

Hoje é outra que a veste em teu lugar,

com o mesmo modo álacre, rubro, vivo!

 

Nada mudou. O mesmo sol, a rua

onde outrora, calados, nos olhámos,

o piano subtil, os mesmos ramos

de roseira silvestre...

                                                -- Só a tua

casta presença grácil se perdeu:

doce lembrança musical, alado

e húmido olor de maresia -- véu

que envolve este retorno inesperado.

 

Daniel Filipe, A Ilha e a Solidão (1957)

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban I

publicado por RAA às 13:50 | comentar | favorito