16
Nov 17

"no ano em que eu era comido pelo escorbuto"

no ano em que eu era comido pelo escorbuto

chegavam as tuas enviadas com limões de oiro

 

tu própria ias dessedentando a boca da viola

para salvar-me o canto

 

eis a ditosa amada, escrevi então

minha pátria

 

Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

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18
Set 16

CANTO PENINSULAR

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui

há novecentos anos. Não cresci nem mudei.

Apodreci.

Doem-me as próprias raízes que criei.

 

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou

a tempestade.

Muita coisa mudou. Só não mudou

este monstro que tem a minha idade.

 

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou

em novecentos anos.

Eu é que não mudei. Neste monstro que sou

só os olhos ainda são humanos.

 

Quantas vezes gritei e não me ouviram

quantas vezes morri e me deixaram

nos campos de batalha onde depois floriram

flores e pão que do meu sangue se criaram.

 

Andei de terra em terra

por esse mundo que de certo modo descobri.

E fui soldado contra a minha própria guerra

eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

 

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.

Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.

Eis-me tal como sou há novecentos anos

eu que não sei escrever sequer o meu próprio nome.

 

Falam de mim e dizem: é um herói.

(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)

Mas nunca ninguém disse a razão por que me dói

estar aqui.

 

Manuel Alegre, Praça da Canção  (1965)

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27
Fev 15

PRIMAVERA DE BALAS

Agarro

Na minha última humilhação

E sem ir embora da minha terra

Emigro para o Norte de Moçambique

Com uma primavera de balas ao ombro.

 

E lá

No Norte almoço raízes

Bebo restos de chuva onde bebem os bichos

No descanso em vez da minha primavera de balas

Pego no cabo da minha primavera de milhos

E faço machamba ou se for preciso

Rastejar sobre os cotovelos

E os joelhos

Rastejo.

 

Depois

 

Escondido em posição no meio do mato

Com a minha primavera de balas apontada

Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão

As mais vermelhas flores florindo

O duro preço da nossa bela

Liberdade reconquistada

Aos tiros!

 

José Craveirinha,

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban III

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17
Dez 14

CANTO INTERIOR DE UMA NOITE FANTÁSTICA

Sereno, mas resoluto

aqui estou -- eu mesmo! -- gritando desvairado

que há um fim por que luto

e me impede de passar ao outro lado.

 

Ante esta passagem de nível

nada de fáceis transposições

Do lado de cá -- pareça embora incrível

é que me meço: princípio e fim das multidões.

 

Não quero tudo quanto me prometem aliciantes

Nada quero, se para mim nada peço,

o meu desejar é outro -- o meu desejo é antes

o desejo dos muitos com que me pareço.

 

Quem quiser que venha comigo

nesta jornada terrena, humana e sincera

E se for só -- ainda assim prossigo

num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera.

 

Que venham glaucas ondas em voragem

que ardam fogos infernais

que até os vermes tenham a coragem

de me cuspir no rosto e no mais.

 

Que os lobos uivem famintos

que os ventos redemoinhem furiosos

que até os répteis soltem seus instintos

e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

 

Que me derrubem e arremessem ao chão

que espesinhem meu corpo já cansado

à tortura e ao chicote ainda responderei não

e a cada queda -- de novo serei alevantado.

E não transporei a linha divisória

entre o meu e o outro caminho

Mesmo que a minha luta não tenha glória

é no campo de combate que alinho.

 

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!

num perigoso mar de paixões e de escolhos

e -- companheiros -- se neste sofrer me virdes chorar

não acrediteis em vossos olhos!

 

Luanda, 31-7-1952

 

António Jacinto,

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban II

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05
Fev 14

UMA FLAUTA TOCA

Múrmura brisa

me traz o som

da flauta clara

lá na montanha

enluarada.

Onde haverá

flauta tocada

no coração

que me retorne

ao lar?

De brisa o som

enche-me as salas

tal como o luar

cobre as montanhas

e os vales.

 

Noite como esta

as hordas bárbaras

no Norte entraram.

E a melodia

me acompanhava

na longa via

em que fugia

até o Sul.

Quando o salgueiro

os ramos pende

na noite fria

nus.

No triste inverno

como esperar

pelo milagre

de lhe nascerem

folhas?

 

Tu Fu

Jorge de Sena,

Poesia de 26 Séculos

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17
Jul 13

BERNAUER STRASSE

para Mariet Meester

 

Fomos os dois em busca de vestígios

entre terrenos maninhos, guindastes,

prédios devolutos, sinais de um tempo

que recebia essa memória a esfarelar-se

sob a fúria que avança, imobiliária.

 

Seguíamos o que nos arabescos de arame

farpado, podia ter sido, quem sabe,

uma linha telegráfica e fora só um quebra-mar

onde deter-se o vazamento e a fuga

de muitos na escolha de um destino.

 

A alma encordoada, de quarentena,

isolada por um cordão sanitário

24 horas de guarda à tentação de saltar --

lugar para aramistas se lançarem

em pleno voo na cerca viva.

 

Neste tempo em que de novo conflui

cada ovelha com sua parelha,

fomos tomando o pulso a uma cidade

dividida em partes iguais pela mesma rua,

vendo como o outro lado também era

uma tela de pintura primitiva,

longa tatuagem com dizeres sibilinos

por onde subia uma vaga vegetação psicadélica

em parietárias coloridas. Até descobrirmos

numa brecha um cemitério sob a folhagem

com as cruzes de acerto que na morte

vão juntando aquilo que o tempo apartou.

 

Paulo Teixeira,

O Anel do Poço / Resumo -- A Poesia em 2009 

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17
Jun 13

ERVA

Amontoem cadáveres em Austerlitz e Waterloo,

Enterrem-mos bem e deixem-me à solta --

          Eu sou a erva, escondo tudo.

 

Montes de corpos em Gettysburg

E montes de corpos em Ypres e Verdun.

Enterrem-mos bem e deixem-me à solta.

Dois anos, dez anos, e os passageiros para o condutor:

          Que sítio é este?

          Agora, onde estamos?

 

          Eu sou a erva,

           Deixem-me à solta.

 

Carl Sandburg

Jorge de Sena, Poesia do Século XX

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08
Fev 13

DESFILE DO POVO ALEMÃO

Decorridos cinco anos nos disseram

que aquele que a si próprio se intitula

enviado de Deus já aprontou

sua guerra, os armamentos;

da forja já saíram os seus tanques,

canhões e cruzadores, e são tantos

os aviões poisados em suas pistas,

que a um gesto seu o céu se toldará.

Pensámos ver que o povo era o chamado

a empunhar estandartes, que homens,

que estado ou pensamento eram os seus.

Passámos em revista o povo alemão.

 

E logo vimos vir

a multidão confusa

e pálida, a seguir

os traços de uma cruz

em sangue inscrita;

que é fácil iludir

em tais pendões a turba.

 

Vimos marchar prá guerra

alguns homens joviais

e vimos sobre o chão

rastejar muito mais.

Nem pragas, lamentos,

perguntas, nem ais,

que tudo abafavam

as músicas marciais.

 

Passaram cinco invernos,

e agora com seus filhos

vêm e com as mulheres.

Não crêem ser possível

mais cinco outros haver.

Assim, trazem consigo

também doentes, velhos,

e perante nós desfilam

em numeroso exército.

 

Bertolt Brecht

(trad. Fiama Hasse Pais Brandão)

Terror e a Miséria no Terceiro Reich

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16
Jul 12

NO ANIVERSÁRIO DA PAZ

Musa da guerra, que alegrias cantas?

Quem ergue e agita as triunfantes palmas,

Se um espasmo de dor prende as gargantas

E a treva ensombra os corações e as almas?

 

Ainda a vitória não desceu à terra...

Ainda, ainda é um falso nome...

Mas se deliu um torvo espectro -- a guerra,

Aumentou logo o velho espectro -- a fome.

 

Amorteceu o pávido estampido

Das vozes dos canhões, repercutentes,

Mas enche o mundo inteiro outro ruído:

-- Milhões de bocas a ranger os dentes!

 

Há nos tratados expressões de paz,

Mas interroga e brada a multidão:

Que bem nos veio dela? O que nos traz,

Se não nos deu contentamento e pão?

 

Augusto Gil

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16
Fev 12

...

A que morreu às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

Teve a sorte que quis,

Teve o fim que escolheu.

Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.

E antes de flor, foi, como tantas, pomo.

Ninguém a virgindade lhe roubou

Depois dum saque -- antes a deu

A quem lha desejou,

Na lama dum reduto,

Sem náusea mas sem cio,

Sob a manta comum,

A pretexto do frio.

Não quis na retaguarda aligeirar,

Entre «champagne», aos generais senis,

As horas de lazer.

Não quis, activa e boa, tricotar

Agasalhos pueris,

No sossego dum lar.

Não sonhou minorar,

Num heroísmo branco,

De bicho de hospital,

A aflição dos aflitos.

 

Uma noite, às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

À hora tal, atacou e morreu.

 

Teve a sorte que quis.

Teve o fim que escolheu.

 

Reinaldo Ferreira 

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