22
Abr 15

A CIGARRA E A FORMIGA

Tendo a Cigarra em cantigas

Folgado todo o verão,

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa Estação.

 

Não lhe restando migalha,

Que trincasse a Tagarela

Foi valer-se da Formiga,

Que morava perto dela.

 

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brio,

Algum grão com que manter-se,

Té voltar o aceso Estio.

 

-- "Amiga, (diz a Cigarra)

Prometo à fé d'animal

Pagar-vos antes de Agosto

Os juros e o principal."

 

A Formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso ajunta

-- "No Verão em que lidavas?"

À pedinte ela pergunta.

 

Responde a outra: "Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora."

-- "Oh bravo! (Torna a Formiga)

Cantavas? Pois dança agora."

 

(La Fontaine)

versão de Bocage

publicado por RAA às 22:19 | comentar | favorito
28
Jul 14

"Se havia corvos não sei"

Se havia corvos não sei

porque há metáforas

de que é prudente sempre duvidar.

 

Havia um galo de ferro

e o hotel

e o telhado onde fora um catavento.

 

Mas agora só grasnava

com a ferrugem

tolhido no seu corpo de aviário

libertado em simulacro.

 

Helder Macedo,

Viagem de Inverno

publicado por RAA às 18:07 | comentar | favorito
30
Jun 14

A GARÇA-REAL

A garça-real desce sobre as águas de Outono,

          voa sozinha, como um floco de neve,

numa paz completa, num total abandono.

          Pousa depois na margem de areia, ao de leve.

 

Poemas de Li Bai

(versão de António Graça de Abreu)

publicado por RAA às 13:23 | comentar | ver comentários (2) | favorito
27
Jun 14

"O boi morreu naquela madrugada de Abril."

O boi morreu naquela madrugada de Abril.

António adormecera a seu lado, caído de sono nas palhas.

Quando acordou, a candeia velava ainda e o boi-amigo morto.

Morto. Bezerrinho, custara sete notas na feira de Ancião.

Cacilda chorou silenciosamente; os filhos acariciaram o lombo,

trémulos de medo e espanto.

Abril e a terra por lavrar.

Abril e daí a meses o milho sem o dorso rijo do boi a caminho da eira.

O pasto apodrecendo no monte.

As oliveiras por amanhar.

Abril, madrugada, e o boi-amigo morto.

Deus nos perdoe: Antes se fosse gente.

 

Fernando Namora, Terra

publicado por RAA às 18:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
31
Mar 14

FIDELIDADE

Duas andorinhas voando sempre a par,

       não distinguem as torres de jade, nem palácios lacados,

mas juntas pousam,

       não distinguem balaustradas de mármore, nem ornatos de janelas,

mas juntas pousam.

       Incendiou-se a trave onde haviam feito o ninho,

as andorinhas fugiram do palácio imperial.

       O palácio também devorado pelo fogo,

mortos a andorinha-macho e os filhotes.

       Ao regressar, a andorinha-fêmea pairou longamente no ar,

contemplando as ruínas do palácio.

       Esta história me entristece.

 

Poemas de Li Bai

(trad. António Graça de Abreu)

publicado por RAA às 13:13 | comentar | favorito
10
Mar 14

TARDE DE INVERNO

Sobre o planalto adormecido

Num frio leito de inverno,

Agasalhado de brumas,

Um Sol terno,

Distraído...

 

De longe, a montanha sombria

Exala uma aragem fria.

 

Cheira a serra,

A terra,

Morta...

 

Mas com seu odor mais forte,

Ao apelo do vento norte

Responde

A minha melancolia...

 

 

Numa colina humilhada

De chuva, de ventanias,

Crucificado num céu dorido,

Surge um pastor como um vencido.

        Em fila, atrás,

Vem o rebanho humílimo balindo;

        Traz nos olhos a paz,

        A paz grave da serra;

E entre os dorsos compactos, de lã fina,

Paira a sombra primeira aventurosa,

O alvoroço da noite misteriosa,

        O pranto da neblina!...

 

Fausto José

presença #18 (1929)

publicado por RAA às 18:35 | comentar | favorito
18
Dez 13

QUATRO

(Em memória do grande Amigo

Joaquim Manuel Maia de Jesus)

 

A rosa vermelha última a que te prendeste

A rosa vermelha nas mãos duma menina

Aquela maçã que tu deste e não comeste

E nestes quatro versos está a tua sina

 

Partiu-se a lua num quarto desesperado

E entrou louca pelo quatro vidros do hospital

Quatro homens levaram teu corpo gelado

E a menina escondeu duas mãos no avental

 

Ali na encruzilhada de todos os ventos

Tristes contando às ondas tão triste nova

Braços de pinheiros bravos foram lamentos

À rosa dos ventos lendo a verdade toda

 

Só aquela cadela que corria ao luar

Anda a uivar pelos caminhos a tua morte

São quatro patas pelo chão a caminhar

Arrastando a raiva humana da tua sorte.

 

Matilde Rosa Araújo,

As Folhas de Poesia Távola Redonda

(edição de António Manuel Couto Viana, 1988)

publicado por RAA às 19:27 | comentar | favorito
26
Jun 13

"Os pássaros"

Os pássaros

Estabelecem diálogos

Que ninguém entende

Felizmente

 

Como tudo o que é puro

De raiz

O que os pássaros dizem

Não se traduz

 

Yèvre-le-Châtel

25 de Junho 90

 

Alberto de Lacerda,

Átrio

publicado por RAA às 13:40 | comentar | favorito
25
Jun 13

JOANINHA

A joaninha bonita
que mora a meio do caminho
da rua das violetas
tem um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas.

E quando a gente lhe diz:
-- «Joaninha voa, voa,
não me digas que tens medo,
se voas serás feliz
que o teu pai está em Lisboa
foi lá comprar um brinquedo...»

A joaninha responde:
«Se és amigo verdadeiro
não me digas voa, voa,
-- voar sim, mas para onde? --
o meu pai não tem dinheiro
para ter ido a Lisboa...»

E a joaninha bonita
lá se fica no caminho
da rua das violetas
com um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas...


Sidónio Muralha, 

Bichos, Bichinhos e Bicharocos

publicado por RAA às 23:48 | comentar | favorito
14
Jun 13

ANTERO DE QUENTAL, O ANJO CANSADO

     os dias iam indo sem sair da noite.

     todas as manhãs um cão entrava nos seus passos para lhe fazer companhia.

     colocou tudo dentro de uma rasura de soneto e fechou a porta.

     fechar a alma era coisa já antiga. como uma rosa que esqueceu o seu nome e já não sabe as palavras de cor.

     a vida poucas vezes lhe deu tempo de guardar no bolso o que era do silêncio, esse riso de hiena armadilhado que põe mel no rumor do medo.

 

     chegou ao Campo de São Francisco à hora que acordara.

     a morte já lá estava com as asas recolhidas.

     sentou-se, deu ao cão um longo afago, aconchegou-o junto às suas pernas, e deixou pousar nos lábios o sal de duas lágrimas.

     depois, devagarinho, tirou do bolso a mão direita e deu dois tiros na morte.

 

     no chão, desde aquele dia, ficou o recorte de uma sombra.

     quem a vê, dá-lhe o nome de sudário.

     e reza.

 

Ilha de S. Miguel, Açores

 

Emanuel Jorge Botelho,

in Cão Celeste #2 (2012)

publicado por RAA às 13:13 | comentar | favorito