21
Mar 17

"Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,"

Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,

arrasta um calçado encharcado,

um saco plástico que verte.

Quando lhe tocam, sujam-se,

mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.

Não tardará que o homem de farda lhe indique a

saída.

 

José  Emílio-Nelson, O Anjo Relicário (1994)

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03
Set 16

LUTCHINHA

Flor é esta entre os lábios

Rosa vermelha de cio

 

O mar de espuma é um rio

granito dos peixes o dorso

 

O longo caminho do exílio

não me esmorece o esforço

 

Flor é esta entre os lábios

Rosa negra saudade

 

Humano sou e permaneço

 

Fraternidade nas lágrimas

que dos teus olhos mereço

 

(Versão de 29.7.69)

 

António Jacinto, Sobreviver em Tarrafal de Santiago

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11
Abr 16

SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória

Respeitou o vencido

 

Aquele que deu tudo e não pediu paga

 

Aquele que na hora da ganância

Perdeu o apetite

 

Aquele que amou os outros e por isso

Não colaborou com sua ignorância ou vício

 

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»

Como antes dele mas também por ele

Pessoa disse

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, Musa (1994)

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17
Dez 14

CANTO INTERIOR DE UMA NOITE FANTÁSTICA

Sereno, mas resoluto

aqui estou -- eu mesmo! -- gritando desvairado

que há um fim por que luto

e me impede de passar ao outro lado.

 

Ante esta passagem de nível

nada de fáceis transposições

Do lado de cá -- pareça embora incrível

é que me meço: princípio e fim das multidões.

 

Não quero tudo quanto me prometem aliciantes

Nada quero, se para mim nada peço,

o meu desejar é outro -- o meu desejo é antes

o desejo dos muitos com que me pareço.

 

Quem quiser que venha comigo

nesta jornada terrena, humana e sincera

E se for só -- ainda assim prossigo

num mar de tumulto, impelindo os remos sem galera.

 

Que venham glaucas ondas em voragem

que ardam fogos infernais

que até os vermes tenham a coragem

de me cuspir no rosto e no mais.

 

Que os lobos uivem famintos

que os ventos redemoinhem furiosos

que até os répteis soltem seus instintos

e me envolvam traiçoeiros e viscosos.

 

Que me derrubem e arremessem ao chão

que espesinhem meu corpo já cansado

à tortura e ao chicote ainda responderei não

e a cada queda -- de novo serei alevantado.

E não transporei a linha divisória

entre o meu e o outro caminho

Mesmo que a minha luta não tenha glória

é no campo de combate que alinho.

 

Assim continuarei a lutar, ai a lutar!

num perigoso mar de paixões e de escolhos

e -- companheiros -- se neste sofrer me virdes chorar

não acrediteis em vossos olhos!

 

Luanda, 31-7-1952

 

António Jacinto,

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban II

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01
Dez 14

CANTIGAS PARA OS TRABALHADORES DOS CAMPOS

Sou cavador, cavo a terra

Donde nasce a flor e o grão.

Dou aos outros a fartura

E em casa não tenho pão.

 

Hoje planto árvor's e vinha,

Lavro a terra, rego a horta,

E amanhã, em sendo velho,

Pedirei de porta em porta.

 

O sol a todos aquece,

Não nega a luz a ninguém,

Ama os bons e ama os maus

E assim foi Jesus também.

 

A árvore, quanto mais fruto,

Mais baixa os ramos p'ra o chão.

O homem, quanto mais rico,

Mais ergue a sua ambição.

 

A vida do pobre é isto:

-- Trabalhar enquanto moço,

E em velho andar às esmolas

Como o cão que busca um osso.

 

Morre um rico, dobram sinos!

Morre um pobre, não há dobres!

Que Deus é esse dos padres

Que não faz caso dos pobres?

 

Se pão não tenho, e os meus filhos

Me pedem pão a chorar,

Dou-lhes beijos, coitadinhos!

Que mais não lhes posso dar...

 

Sinto no mundo um rumor

Que anuncia um dia novo,

Andam profetas na terra

Abrindo os braços ao povo!

 

O sol nasceu cor de sangue

E a lua da mesma cor.

Gritam as bocas: Mais pão!

E os corações: Mais amor!

 

Bernardo de Passos,

Refúgio / Líricas Portuguesas. 2.ª Série

 (edição de Cabral do Nascimento)

 

 

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05
Nov 14

CIDADE

Narrativa sem sequência

Sem progressão

 

 

Sem personagens

Principais

 

 

Xadrês infinito

De milhões de corpos

 

O xadrez das almas

Esse

Mais hermético ainda

No colosso da urbe

 

Londres

21 de Junho 90

 

Alberto de Lacerda

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30
Out 14

FUI À BEIRA DO MAR

Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alrgre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a Alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Detei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo

 

José Afonso

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16
Ago 14

TESTAMENTO

para ti minha mãe pudica mulher do povo

percal de energia em nossa casa

mais que mãe companheira

mais que companheira anjo da guarda

teço na lira uma oração de linho

tão puro e branco como o teu amor

 

e para ti meu pai que andaste por verdes pinheirais

e deles me legaste o puro ar

a quietude da ramagem

a mansa caruma

e o tronco casa de pobre lareira de inverno

componho os sons duma canção com sabor de lenha

que alguém um dia nos campos cantará

 

para vós irmãos meus camaradas

que comigo procuram uma estrela

sem nunca a encontrar

mas sem desistências traições ou a palavra medo

dentro dos corações ainda a esperam

e comigo continuam

ofereço meu hálito quando jovem

beijava os pés dos camponeses

únicos santos que venero

 

e para os inimigos ou simplesmente aqueles

que duvidaram da foice que enterrei nesta seara

desde o bago à esperança que inteira permanece

lego o retrato alentejano de meus filhos

que são dois:

o josé

e a ana.

 

Eduardo Olímpio

Cadernos Despertar #1 (1982)

 

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11
Jul 14

LUÍS VAZ

Como foi em vão teu canto Luís Vaz

por esta terra que de pátria alheia jaz

se à aventura te deste foi a musa

cruel inspiradora que sublime te elevou

filho humilde desta rude gente lusa

tão crua no sentir que a sorte te ditou

 

Pelo limbo do ocaso esmolaste a tença

degrau a degrau cobrando a vida por avença

e a hipocrisia nasceu nua naqueles quando

morto te usaram com tão grande cinismo

porque tu só pertences aos que vão rimando

este chão com revolta dor e inconformismo.

 

Francisco Cardo,

in A Batalha #260

Mai.-Jun. 2014

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27
Jun 14

"O boi morreu naquela madrugada de Abril."

O boi morreu naquela madrugada de Abril.

António adormecera a seu lado, caído de sono nas palhas.

Quando acordou, a candeia velava ainda e o boi-amigo morto.

Morto. Bezerrinho, custara sete notas na feira de Ancião.

Cacilda chorou silenciosamente; os filhos acariciaram o lombo,

trémulos de medo e espanto.

Abril e a terra por lavrar.

Abril e daí a meses o milho sem o dorso rijo do boi a caminho da eira.

O pasto apodrecendo no monte.

As oliveiras por amanhar.

Abril, madrugada, e o boi-amigo morto.

Deus nos perdoe: Antes se fosse gente.

 

Fernando Namora, Terra

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