22
Set 16

TARDE

Vago sabor de outono

E de coisas extintas.

Nem desejos nem dor...

Meu coração esquece.

 

No ar parado voga

Talvez uma saudade

De tudo que perdi,

De tudo que não fui.

 

Ninguém chama por mim

Nem chamo por ninguém.

Instante calmo e triste...

Como a vida está longe!

 

No dia húmido cai

Um silêncio dormente.

Uma música ausente

Meu coração embala.

 

Luís Amaro

As Folhas de Poesia Távola Redonda

(edição: António Manuel Couto Viana)

 

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06
Abr 16

ORIENTE

Este lugar amou perdidamente

Quem o cabo rondou o extremo Sul

E a costa indo seguindo para Oriente

Viu as ilhas azuis do mar azul

...........................................................

Viu pérolas safiras e corais

E a grande noite parada e transparente

Viu cidades e nações viu passar gente

De leve passo e gestos musicais

 

Perfumes e tempero descobriu

E danças moduladas por vestidos

Sedosos flutuantes e compridos

E outro nasceu de tudo quanto viu

.............................................................

 

1988

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós (1994)

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13
Dez 15

OLHANDO O MAR

Sentados na varanda olhando o mar

não sei ao certo o que pensam ou recordam

se um filho morto ou a viagem nunca feita

um verão há muito um só verão não mais.

Não sei sequer se esperam qualquer coisa

ou simplesmente olham o mar

sentados na varanda ao fim da tarde.

Dois traços sobre um azul de Turner

um outro traço; a sugestão de um barco

aquele em que navegam ao fim dsa tarde

quando pego na caneta e devagar começo: 

«Sentados na varanda olhando o mar»

 

5-4-2003

 

Manuel Alegre, Doze Naus (2007)

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28
Nov 15

A CASA

Paredes brancas pátios interiores

as mesas largas as cadeiras quase toscas

despojamento de convento e de deserto

a planície prolonga-se na casa

com seu rigor e sua estética

do necessário

do liso

do elementar.

 

Aristocracia do pobre

com sua manta e com seu cobre.

 

Há um cheiro a pão recém-cortado.

 

A casa alentejana está escrita na planície

como o poema no branco descampado.

 

Manuel Alegre, Alentejo e Ninguém (1986)

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20
Mai 15

DESISTIR DAS PALAVRAS COM PALAVRAS

Não é tempo de deixar que as coisas corram?

Abandono o caderno de rascunho,

saio do quarto onde escrevo à máquina.

 

As asas dos abelhões rodopiam

livres do delicado tecido das palavras:

o regato faz cintilar

 

uma folha que cai da cama, sombra confusa

caindo com ela, sem qualquer

ajuda da minha parte: as coisas entregues a si próprias

 

desfazem-se? Está a libertação já

escrita nos movimentos da coerência?

Imitaram as palavras desde o início

 

o trabalho que é melhor feito quando está por fazer?

Há quem pense sem crueldade despertar de novo;

há quem abrande a dura atenção

 

ao ver o orvalho secar, o esquilo erguer-se

(erecto, o cão da pradaria de ventre branco)

o efémero insecto colar-se todo o dia à rede da porta.

 

A. R. Ammons

(versão de Maria de Lourdes Guimarães)

Limiar #4, Porto, 1994

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25
Jul 14

YÈVRE-LE-CHÂTEL

Dias intensos

 

 

Verde

 

 

Onde paira

 

 

Refractada

 

 

A eternidade

 

Yèvre-le-Châtel

4-5 de Julho 90

 

 

Alberto de Lacerda, Átrio

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02
Jul 14

...

Em certos dias

há um júbilo de claridade

um domínio absoluto de rectidão

e louvor

às vezes, basta um ínfimo gesto

para acender a palavra branca

a voragem da sílabas

na orla da tinta.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da tinta

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03
Fev 14

DA QUIETAÇÃO

Dos males, que passei no povoado,

Fugi para esta Serra erma e deserta,

Vendo que quem servir seu Deus acerta,

Certo tem tudo o mais ter acertado.

 

E para mais pureza ser forçado

Mostrar a paciência descoberta,

Que quando o tentador se desconcerta,

O paciente fica concertado.

 

Passou a furiosa tempestade,

Ouve-se a voz da rola em nossa terra,

Soando com maior suavidade.

 

Cobriu-se d'alvas flores toda a Serra,

A minha alma de doce saudade,

Em paz me faz amor divina guerra.

 

Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias /

/ A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa

(edição de António Mateus Vilhena e Daniel Pires)

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15
Jan 14

RODOPIO

Volteiam dentro de mim,

Em rodopio, em novelos,

Milagres, uivos, castelos,

Forcas de luz, pesadelos,

Altas torres de marfim.

 

Ascendem hélices, rastros...

Mais longe coam-me sóis;

Há promontórios, faróis,

Upam-se estátuas de heróis,

Ondeiam lanças e mastros.

 

Zebram-se armadas de cor,

Singram cortejos de luz,

Ruem-se braços de cruz,

E um espelho reproduz,

Em treva, todo o esplendor...

 

Cristais retinem de medo,

Precipitam-se estilhaços,

Chovem garras, mantas, laços...

Planos, quebras e espaços

Vertiginam em segredo.

 

Luas de oiro se embebedam,

Rainhas desfolham lírios;

Contorcionam-se círios,

Enclavinham-se delírios.

Listas de som enveredam...

 

 

Virgulam-se aspas com vozes,

Letras de fogo e punhais;

Há missas e bacanais,

Execuções capitais,

Regressos, apoteoses.

 

Silvam madeixas ondeantes,

Pungem lábios esmagados,

Há corpos emaranhados,

Seios mordidos, golfados,

Sexos mortos de anseantes...

 

(Há incensos de esponsais,

Há mãos brancas e sagradas,

Há velhas cartas rasgadas,

Há pobres coisas guardadas --

Um lenço, fitas, dedais...)

 

Há elmos, troféus, mortalhas,

Emanações fugidias,

Referências, nostalgias,

Ruínas de melodias,

Vertigens, erros e falhas.

 

Há vislumbres de não-ser,

Rangem, de vago, neblinas,

Fulcram-se poços e minas,

Meandros, pauis, ravinas,

Que não ouso percorrer...

 

Há vácuos, há bolhas de ar,

Perfumes de longes ilhas,

Amarras, lemes e quilhas --

Tantas, tantas maravilhas

Que não se pode sonhar!...

 

Mário de Sá-Carneiro,

Poemas Escolhidos

(edição de Clara Rocha)

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14
Nov 13

CANÇÃO DUMA SOMBRA

Ah, se não fosse a névoa da manhã

E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,

                    Eu não era o que sou.

 

Se não fosse esta fonte, que chorava,

E como nós cantava e que secou...

E este sol que eu comungo de joelhos,

                     Eu não era o que sou.

 

Ah, se não fosse este luar, que chama

Os espectros à vida e se inflitrou,

Como fluido mágico, em meu ser,

                    Eu não era o que sou.

 

Ah, se não fosse o vento, que embalou

Meu coração e as nuvens, nos seus braços,

                    Eu não era o que sou.

 

Sem esta terra funda e fundo rio,

Que ergue as asas e sobe, em claro voo;

Sem estes ermos montes e arvoredos,

                    Eu não era o que sou.

 

Teixeira de Pascoais,

/ Antologia Poética

(edição de Ilídio Sardoeira)

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