15
Nov 17

POEMETO IRÔNICO

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

 

Curiosidade sentimental

Do seu aroma, da sua pele.

Sonhas um ventre de alvura tal,

Que escuro o linho fique ao pé dele.

 

Dentre os perfumes sutis que vêm

Das suas charpas, dos seus vestidos,

Isolar tentas o odor que tem

A trama rara dos seus tecidos.

 

Encanto a encanto, toda a prevês.

Afagos longos, carinhos sábios,

Carícias lentas, de uma maciez

Que se diriam feitas por lábios...

 

Tu te perguntas, curioso, quais

Serão seus gestos, balbuciamento,

Quando descerdes na espirais

Deslumbradoras do esquecimento...

 

E acima disso, buscas saber

Os teus institntos, suas tendências...

Espiar-lhe na alma por conhecer

O que há de sincero nas aparências.

 

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

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15
Set 17

COMME IL FAUT

Um bom broche

acaba

sempre

num belo sorriso

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio (2004) 

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28
Jan 17

EVOCAÇÃO DE SILVES

Saúda, por mim, Abu Bakr,

Os queridos lugares de Silves

E diz-me se deles a saudade

É tão grande quanto a minha.

Saúda o palácio dos Balcões

Da parte de quem nunca os esqueceu.

Morada de leões e de gazelas

Salas e sombras onde eu

Doce refúgio encontrava

Entre ancas opulentas

E tão estreitas cinturas!

Mulheres níveas e morenas

Atravessavam-me a alma

Como brancas espadas

E lanças escuras

Ai quantas noites fiquei,

Lá no remanso do rio,

Nos jogos do amor

Com a da pulseira curva

Igual aos meandros da água

Enquanto o tempo passava...

E me servia de vinho:

O vinho do seu olhar

Às vezes o do seu copo

E outras vezes o da boca.

Tangia cordas de alaúde

E eis que eu estremecia

Como se estivesse ouvindo

Tendões de colos cortados.

Mas retirava o seu manto

Grácil detalhe mostrando:

Era o ramo de salgueiro

Que abria o seu botão

Para ostentar a flor.

 

Al-Mu'tamid,

in Adalberto Alves, O Meu Coração É Árabe (1987)

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16
Out 16

LITANIA

O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror;

 

são a grande razão, a única razão.

Eugénio de Andrade, Doze Poemas

 

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07
Mar 16

GREEN GOD

Trazia consigo a graça

das fontes quando anoitece.

Era o corpo como um rio

em sereno desafio

com as margens quando desce.

 

Andava como quem passa

sem ter tempo de parar.

Ervas nasciam dos passos,

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

 

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ele sabia

que os deuses devem usar.

 

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo o que via,

enleado na melodia

duma flauta que tocava.

 

Eugénio de Andrade, 12 Poemas (1995)

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27
Fev 16

CANTIGA

Grã coita tenho sofrido

Por homem que desdenhei

Que sempre seja sabido

Quanto o amo e amarei.

É-me agora fementido

Por amor que eu recusava.

E doida eu 'stava em vestido

Ou se nua me deitava.

 

Ai quero ao meu cavaleiro

Apertar às tetas brancas!

O corpo dou-lh'eu inteiro,

Cavalgará minhas ancas!

Ca lh'estou mais que rendida

Flora o foi de Brancaflor,

É todo seu meu amor,

Minh'alma, os olhos e a vida.

 

Ai meu amigo velido!

S'em meu poder vos tomar

E convosco me deitar

E d'amor eu vos beijar,

Não há nenhum mor prazer

Que vos ter com'a marido,

Se de vós for prometido

Fazerdes quant'eu quiser.

 

Béatrix de Viennois, Condessa de Die,

in Jorge de Sena, Poesia de 26 Séculos

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03
Fev 15

CONVERSÃO

Descuidado andava no bosque do vale

No tempo dos jacintos,

Até que a beleza como um pano perfumado

Que me cobrisse me estrangulou. Fui amarrado,

imóvel e sem poder respirar,

Pelo encanto que era o eunuco dela.

E agora eis que entro no rio final

Ignominiosamente, num saco, sem ruído,

Como qualquer turco no Bósforo que espreitasse o harém.

 

T. E. Hulme,

in Jorge de Sena, Poesia do Século XX (1978)

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26
Jan 15

MUDA AOS CINCO, ACABA AOS DEZ

Fui-te à cona, fui-te ao cu

obriguei-te a fazer broche

fiz-te vir em catadupas

mas no fim fui teu fantoche

 

Dick Hard, De Boas Erecções Está o Inferno Cheio

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18
Nov 14

VERSOS DA BELA ADORMECIDA

Lá longe, muito longe, ai, muito longe!, ao fundo

              De areias e gelos do cabo do mundo,

Depois de ralos, aflições, suores, dragões, ciladas, perigos,

              E bosques tenebrosos, antigos, antigos.

 

Sonhei que ela me espera, adormecida

             Desde o começo da vida,

Nua, deitada sobre as tranças de oiro,

             Guardada para mim como um tesoiro.

 

             Sonhei que um nimbo argênteo a veste,

Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste,

             E que sobre ela paira o silêncio profundo

             Dos gelos e areias do cabo do mundo...

 

No seu lábio, um sorriso ainda transido

Ficou, como na boca das estátuas, esculpido,

               Esperando, talvez, para raiar,

               Que ela suba as pestanas, devagar...

 

Vi uma vez, em sonhos vi, que aquelas pálpebras se erguiam,

Sim, devagar..., sim, devagar..., e que os seus lábios me diziam,

             Estendidos para mim:

             -- «Chegaste?, chegaste enfim?!»

 

             E eu soluçava: -- «Sim, sou eu...!

«Mas tu..., és tu, bem tu, Porta do Céu?!

«És tu, ou não és mais que mais uma miragem

«Das tantas que encontrei pela viagem? 

 

«Ai, que de vezes já supus que te possuía

«Em uma imagem que afinal era vazia, era vazia!

«E que longe, afinal, te não venho encontrar,

«Que passei ermos, passei montes, passei pegos, passei mar...»

 

Foi isto em sonhos. Acordado, eu perguntava: -- «Que farei?

               «Aonde... a que longe irei,

«Para que vos atinja, ó silêncios sem fundo

               «De areias e gelos do cabo do mundo?

 

«Anjos, demónios, serafins de asas de lanças e cabelos

               «De chamas e serpentes aos novelos,

               «Génios que em sonhos me guiais!:

               «Já me não bastam sonhos! Quero mais.

 

               «Quero, através seja de que desertos,

                «Chegar a ver, com olhos bem despertos,

                «O resplendor que sei que a veste,

                «Raiando o céu de norte a sul, de leste a oeste...»

 

Assim falei. Ninguém, porém, me mostrou ter ouvido.

               Meu grito, além, se extinguiu já, perdido...

E eu morro deste ardor, que nada acalma,

               Com que aspiro debalde à minha própria alma.

 

 

José Régio,

As Encruzilhadas de Deus (1936)

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02
Nov 14

CAMPONESES

2

 

O quarto das cebolas.

Por trás da porta esburacada

uma rapariga nua

de belíssimas mamas enxutas puxadas para cima

um cão de lombo comprido o pêlo esticado

outra rapariga de mamilos violentos

-- um sol viúvo.

 

Praia da Granja

-- Inverno de 2005

 

Abel Sabaoth

[Fernando Grade],

in Viola Delta vol. 42, 2006

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