13
Dez 15

OLHANDO O MAR

Sentados na varanda olhando o mar

não sei ao certo o que pensam ou recordam

se um filho morto ou a viagem nunca feita

um verão há muito um só verão não mais.

Não sei sequer se esperam qualquer coisa

ou simplesmente olham o mar

sentados na varanda ao fim da tarde.

Dois traços sobre um azul de Turner

um outro traço; a sugestão de um barco

aquele em que navegam ao fim dsa tarde

quando pego na caneta e devagar começo: 

«Sentados na varanda olhando o mar»

 

5-4-2003

 

Manuel Alegre, Doze Naus (2007)

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30
Out 14

FUI À BEIRA DO MAR

Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alrgre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a Alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Detei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo

 

José Afonso

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22
Jul 13

CHORO DE VAGAS

Não é de águas apenas e de ventos,

no rude som, formada a voz do Oceano:

Em seu clamor -- ouço um clamor humano,

Em seus lamentos -- todos os lamentos.

 

São de náufragos mil estes acentos,

Estes gemidos, esse aiar insano;

Agarrados a um mastro, ou tábua, ou pano,

Vejo-os varridos de tufões violentos;

 

Vejo-os na escuridão da noite, aflitos,

Bracejando, ou já mortos e de bruços,

Largados das marés em ermas plagas...

 

Ah! que são deles estes surdos gritos,

Esse rumor de preces e soluços

E o choro de saudade destas vagas!

 

Alberto de Oliveira,

Poesias

inEvaristo Pontes do Santos, Antologia Portuguesa e Brasileira

(1974)

 

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19
Jun 13

CANTO JOVEM

Somos filhos da madrugada

Pelas praias do mar nos vamos

À procura de quem nos traga

Verde oliva de flor no ramo

Navegámos de vaga em vaga

Não soubemos de dor nem mágoa

Pelas praias do mar nos vamos

À procura da manhã clara

 

Lá do cimo duma montanha

Acendemos uma fogueira

Para não se apagar a chama

Que dá vida na noite inteira

Mensageira pomba chamada

Companheira da madrugada

Quando a noite vier que venha

Lá do cimo duma montanha

 

Onde o vento cortou amarras

Largaremos pela noite fora

Onde há sempre uma boa estrela

Noite e dia ao romper da aurora

Vira a proa minha galera

Que a vitória já não espera

Fresca brisa moira encantada

Vira a proa da minha barca

 

José Afonso

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14
Mar 13

ZÉ JEITOSO

Quando a noite cai, o Zé Jeitoso começa

uma história simples, uma história qualquer,

com palavras de embalar

para que o mar

adormeça,

-- o mar, diverso como um corpo de mulher.

 

Zé Jeitoso conta -- e os colegas a ouvi-lo,

sentados no chão, deitados no chão,

pensam que para contar aquilo

Zé Jeitoso traz o mar no coração...

 

Zé Jeitoso fala de longínquos portos,

de perrices fantásticas do mar,

e julga que os companheiros mortos

passeiam no céu, em noites de luar...

 

Zé Jeitoso fala... E nas palavras de embalar

os companheiros ficam presos...

O mar adormece... E, por cima do mar,

as estrelas parecem cachimbos acesos...

 

Sidónio Muralha,

Passagem de Nível

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03
Mar 13

BÚZIO DO MAR

Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta,

O mar na praia é um tambor em festa!

 

Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!

O mar não anda bom...

E som, e som, som-som,

deita a fugir o peixe.

 

Meus patrícios, poveiros tal e qual

É a nobreza maior de Portugal!

 

Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,

E ouço-o bem duas légias em redol:

Meio ano a lavoirar,

Outro meio ao anzol!

 

Meus patrícios cada qual

Tem o seu bote que é o seu casal.

 

Mas, o Oceano, o mar não anda bom:

Ondas são trambulhões, e trambulhões de som!

 

Ó mar, meu brutamontes,

Música, deixa ouvi-la da noitinha:

Eu quero ouvir o murmurar das fontes

Que a noite já se avizinha...

 

Afonso Duarte

presença #16

Coimbra, Novembro de 1928

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06
Dez 12

DOIS POEMAS DA PRAIA DA AREIA BRANCA

1

 

Na Praia da Areia Branca

os búzios não falam só do mar:

-- falam das pragas, dos clamores,

da fome dos pescadores

e dos lenços tristes a acenar.

 

Búzios da Praia da Areia Branca:

-- um dia

haveis de falar

unicamente do mar.

 

 

2

 

No fundo do mar,

há barcos, tesoiros,

segredos por desvendar

e marinheiros que foram morenos ou loiros.

 

Ali, não são morenos nem loiros,

-- são formas breves, a descansar,

sem ambições para os tesoiros

e de cabelos verdes dos limos do mar.

 

Serenos, serenos, repousam os mortos,

 

-- enquanto o mar

ensina o mundo a falar

a mesma língua em todos os pontos.

 

Sidónio Muralha

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28
Jun 12

A ROSA IRREVELADA

Correi o mundo e procurai palavras novas para um poema.

Dos oceanos trazei nomes de peixes e remotas ilhas,

tranças de virgens, seios afogados,

mas

antes de tudo palavras para um poema.

 

Caminhai nas trevas em busca de uma rosa.

Colhei nos cardos a flor menosprezada.

Buscai no mar os líquenes, as esponjas,

trazei convosco pérolas,

peixes negros e plantas submarinas.

 

Trazei a náufraga de olhos devorados

por gaivotas. A náufraga de seios como luas

entre ciprestes de algas. A náufraga

de coxas como praias

onde o desejo espuma e desfalece.

 

Não procureis anelos e ternura

nem um pássaro de canto engaiolado.

Quero-vos noite escura, corpo escuro

de mulher em silêncio, rosa inviolável.

 

Trazei da noite palavras para um poema.

A irrevelada morte para um poema.

 

Domingos Carvalho da Silva

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28
Mar 12

ONDAS

Onde -- ondas -- mais belos cavalos

Do que estes ondas que vós sois

Onde mais bela curva do pescoço

Onde mais longas crinas sacudidas

Ou impetuoso arfar no mar imenso

Onde tão ébrio amor em vasta praia.

 

Dezembro 89

 

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

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02
Fev 12

PORTO

Havia nos olhos posto o sentido

de não vencerem distâncias.

Calados, mudos, de lábios colados no silêncio

os braços cruzados como quem deseja

mas de braços cruzados.

 

Os navios chegavam aos portos e partiam.

Os carregadores falavam da gente do mar.

A gente do mar dos que ficam em terra.

As mercadorias seguiam.

Os ventos dispersos na alma do tempo,

traziam as novas das terras longínquas.

Segredavam-se em noite e dias

a todos os homens

em todos os mares

e em todos os portos

num destino comum.

 

Os navios chegavam ao porto

e partiam...

 

Alexandre Dáskalos

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