27
Nov 17

EPIGRAMA

O cego deu à manivela

Da velha e triste pianola,

Que era a alegria da vila;

Mas já ninguém vem à janela.

-- Pois, vindo, davam-lhe esmola...

E, ocultos, podem ouvi-la. 

 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

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30
Mar 16

«He loved beauty that looked kind of destroyed.»*

Gostava dessa espécie de beleza

que podemos surpreender a cada passo,

desvelada pelo acaso numa esquina

de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta

que foi toda a infância de alguém,

com visitas ao domingo e tardes no quintal

depois da escola; a beleza crepuscular

de alguns rostos num retrato de família

a preto e branco, ou a de certos hotéis

que conheceram há muito os seus dias de fulgor

e foram perdendo estrelas; a beleza condenada

que nos toma de repente, como um verso

ou o desejo, como um copo que se parte

e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.

Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós

consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada

onde a vida encontra o espelho mais fiel.

 

*James Gavin, Deep in a Dream: The Long Night Of Chet Baker, Londres, Vintage, 2003, p. 312.

 

Rui Pires Cabral, Oráculos de Cabeceira /

/ Resumo -- A Poesia em 2009

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31
Out 14

JOSEFINA BAKER

De qualquer ilha escondida

no quente mar colorista,

veio essa Baker trazida

pla mão da 5.ª avenida:

o roteiro fantasista.

 

Essa negra Josefina

deixou Colombo vexado,

ligando a terra-menina,

que é branca e greco-latina,

ao continente sobrado...

 

Um demónio de negrura:

trópico aroma se exala.

Seu corpo a imagem figura

de um brônzeo clima, em tontura,

cercando à noite a senzala.

 

O ritmo antigo é perdido,

outro mundo volverá.

Nesta Europa sem sentido

a Baker marca o ruído

e o mediano o Dekobra.

 

Façam batuque, batuque,

plantem na Europa o Haiti.

Caliça que a alma amachuque,

que caia o tecto de estuque

no senhor de Valéry.

 

Velha casa brazonada,

deu-lhe o vento de ruína.

A celta flor desfolhada,

morreu de tédio pisada

aos pés dessa Josefina.

 

Luís de Montalvor,

presença # 19,

Março 1929

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25
Set 14

"Silêncio"

Silêncio

 

 

 

Mestre

 

 

 

O mestre

 

 

 

Supremo

 

Yèvre-le-Châtel

7 de Julho 90

 

Alberto de Lacerda

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29
Jan 14

"Retirados à altura da sua idade, ouviam."

Retirados à altura da sua idade, ouviam.

Mas ouviam frequências onde o rumor do mundo,

esbatido, somente amanhecia

azul visível, atento timbre e pulso.

Ouviam tudo quanto a si se ouvia

no concerto de tudo.

E nessa solidão de intensa companhia

em que a altura da idade era um azul profundo.

 

Fernando Echevarría

Relâmpago #2 (1998)

 

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04
Jun 13

CORAL

É um dos corais de Leipzig,

o quarto. Sem saber como, desceu ao chão

da alma. A música

é este abismo, esta queda

no escuro. Com o nosso corpo

tece a sua alegria,

faz a claridade

dos bosques com a nossa tristeza.

Pela sua mão conhecemos a sede,

o abandono, a morte. Mas também

o êxtase de estrela em estrela.

E a ressurreição.

 

Foz do Douro, 19.9.97

 

Eugénio de Andrade

in Relâmpago #2, 1998

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31
Mai 13

VARIEDADES

Começa o bailado...

...O cenário é oiro.

Parece um tesoiro

Já desencantado.

 

O som é parado.

Como o dum besoiro,

Ou cantar de moiro,

Dolente -- arrastado.

 

...E a tal bailarina,

No ritmo quente

Do seu corpo nu,

 

É já serpentina

Mais enlanguescente

No bailado hindu.

 

Artur Hespanha

presença #16, Coimbra, 1928

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30
Mai 13

PAISAGEM COM MOVIMENTAÇÃO

Um pato deslizando

em lago oval e roxo

Ao crepúsculo

onde meninas

dançam Chopin

 

Ou era só um carimbo?

 

Carlos Saldanha

in Heloisa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje, 1975

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17
Abr 13

AO CAVALO DO CONDE DE SABUGAL, QUE FAZIA GRANDES CURVETAS

Galhardo bruto, teu bizarro alento

Música é nova com que aos olhos cantas,

Pois, na harmonia de cadências tantas,

É clave o freio, é solfa o movimento.

 

Ao compasso da rédea, ao instrumento

Do chão que tocas, quando a vista encantas,

Já baixas grave, e agudo já levantas,

Onde o pisar é som e o andar concento.

 

Cantam teus pés e teu meneio pronto,

Nas fugas, não, nas cláusulas medido,

Mil consonâncias forma em cada ponto.

 

Pois em solfas airosas suspendido,

Ergues em cada quebro um contrato,

Fazes em cada passo um sustenido.

 

Anónimo

(atribuído a Frei António das Chagas)

Maria Ema Tarracha Ferreira, Antologia Literária Comentada --

Época Classica -- Século XVII

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14
Fev 13

AMÉRICA

IV

 

Mas quando chegares a New Orleans

olha para os meus dentes teclas

de jazz,

minhas pernas múltiplas

de jazz,

minha cólera ébria

de jazz,

olha os mercadores da minha pele,

olha os matadores ianques

pedindo-me

jazz,

one

       two

             three

jazz,

sobre o meu sangue,

jazz,

milhões de palmas para mim

jazz.

 

Manuel Lima

(in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban II)

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