03
Abr 17

METODOLOGIA

Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
quer tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli, O Corpo de Atena (1984)
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27
Dez 16

HOMERO

Escrever o poema como um boi lavra o campo

Sem que tropece no metro o pensamento

Sem que nada seja reduzido ou exilado

Sem que nada separe o homem do vivido

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, 

O Búzio de Cós e Outros Poemas (1997)

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13
Dez 15

OLHANDO O MAR

Sentados na varanda olhando o mar

não sei ao certo o que pensam ou recordam

se um filho morto ou a viagem nunca feita

um verão há muito um só verão não mais.

Não sei sequer se esperam qualquer coisa

ou simplesmente olham o mar

sentados na varanda ao fim da tarde.

Dois traços sobre um azul de Turner

um outro traço; a sugestão de um barco

aquele em que navegam ao fim dsa tarde

quando pego na caneta e devagar começo: 

«Sentados na varanda olhando o mar»

 

5-4-2003

 

Manuel Alegre, Doze Naus (2007)

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18
Nov 15

AS MÃOS

Componho com as linhas dos meus dedos outros puros

cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo

de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo

e se declamo ficções que eles escorem

Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira

mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos

Dedos com um horizonte de pálpebra baixando

que assim não acordem as formas tacteadas

donde um sono mane estrie os paços vedados

Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima

Ou os que já compus e assinam e adiam o poema.

 

Sebastião Alba, A Noite Dividida (1996)

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04
Mar 15

"Sílabas tão leves"

Sílabas tão leves

que nem a água

estremece.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta

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13
Jun 14

TRABALHO

é preciso escrever o poema. formar a

palavra. amá-la.

escrever por exemplo o homem e

pôr os testículos à

mostra para confirmação do

substantivo.

 

é preciso também escrever amor a

tinta da china   preta de

preferência para

maior duração do

coito.

 

e mar. é preciso escrever mar

navio vaga como quem

semicircula uma foice como quem

desenha uma

gaivota na charneca do

mar.

 

e é preciso também escrever

medo

para que o poema tenha cãs

e a esperança cresça

prenha

no grito mais secreto das manhãs.

 

Eduardo Olímpio,

in Cadernos Despertar #1 (1982)

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19
Mai 14

UM BARCO

Corre um barco no sulco do canal

mais longínquo da ria; enquanto passo

para o poema o seu percurso, faço

morrer a imagem branca que imortal

 

há pouco parecia; agora o espaço,

que da mancha mortal,  ponto de cal,

livre ficou, um troço é afinal

do ramo de água que na tarde traço,

 

a sucessão olhando de um e e outro

avulso braço da laguna fria,

e desfaço, no verso onde esse barco

 

naufragou quando quase ainda o via,

correndo e já ausente, breve potro,

na distância da água vivo rastro

 

Gastão Cruz,

in O Escritor #22

(Outubro 2007)

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20
Fev 14

OS POETAS SÃO P'RA DEVORAR À COLHERADA

Os poetas comem-se uns aos outros

na ânsia do martelo de Thor

das vísceras poéticas do potros

do soneto em dó maior

 

Os poetas são p'ra devorar à colherada

trincar as palavras com desdém

a poesia não tem hora marcada

não se compra ao quilo ou ao vintém

 

Trituram-se os versos sem piedade

as estrofes chovem nos rios a sul do norte

um vate é animal de soledade

sempre em busca de si até à morte

 

Os poetas não são mais que canibais

comem-se a eles e não sobra nada

diluem-se no fervor dos bacanais

apagam-se a sonhar co'a boa fada.

 

Dick Hard,

De Boas Erecções Esté o Inferno Cheio

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06
Jun 13

"Escrever, tecer um anel"

Escrever, tecer um anel

em redor das coisas

A tinta prolonga

o sangue

consome o saber das sílabas

 

Com um pé na norma

e outro na errância

navego no coração do vento

 

Respiro no milagre

dos gestos ínfimos e graves

 

Faço de espanto

a regra e o sinal

 

Talvez adormeça

encostado ao azul

na mais pura ignorância da morte

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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22
Mar 13

-trinta dinheiros

faço parte de um todo

que não escreve em vão

talvez seja a única certeza que tenho

sou o verso de um poema convocado

pela tentação dos deuses

a um encontro final

a outra parte submerge

algures no universo das folhas caducas

onde cada um de nós é a pata de uma aranha secular

fazendo da palavra a teia

onde se inserem as constelações/poemas

as páginas/sonhos

as armas/revoluções

os cães democratas e

o riso abaerto das noites

capazes de passar incólumes

à memória absurda dos especialistas

de portas escancaradas à compra

 

trinta dinheiros - é comprar!

 

vomito

 

somos

-os alquimistas que se ousam

em pontos finais e vírgulas

em lombadas de livros

em palavras e páginas azuis e

 

cujas gargalhadas não constam de acordos

 

-crianças velhas que

exigem palavras novas ou

loucos insurrectos prenhes de poemas virgens

 

Gabriela Rocha Martins

Sulscrito #3

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