12
Mar 16

O PRATO DA MENINA

A menina tinha um prato

e dentro do prato um pato

de penas cinzentas e lisas

e no fundo desse prato

havia um prato pintado

e dentro do prato um pato

com uma menina ao lado.

E essa menina de tinta

tinha um prato mais pequeno

e dentro do prato um pato

de penas cinzentas lisas

e no fundo desse prato

estava outra menina ao lado

de um outro pato de penas

cada vez mais pequeninas.

Se a menina não comia

não via o fundo do prato

que tinha lá dentro um pato

de penas cinzentas lisas,

nem via a outra menina

que era bem mais pequenina

e tinha na frente um pato

um pato muito bonito

de penas cinzentas lisas

tão pequenas tão pequenas

que até parecia impossível

como a menina ainda via

e imaginava o desenho

até ao próprio infinito.

 

Maria Alberta Menéres,

in Maria de Lourdes Varanda & Maria Manuela Santos,

Poetas de Hoje e de Ontem --

Do Século XII ao XXI para o Mais Novos

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22
Abr 15

A CIGARRA E A FORMIGA

Tendo a Cigarra em cantigas

Folgado todo o verão,

Achou-se em penúria extrema

Na tormentosa Estação.

 

Não lhe restando migalha,

Que trincasse a Tagarela

Foi valer-se da Formiga,

Que morava perto dela.

 

Rogou-lhe que lhe emprestasse,

Pois tinha riqueza e brio,

Algum grão com que manter-se,

Té voltar o aceso Estio.

 

-- "Amiga, (diz a Cigarra)

Prometo à fé d'animal

Pagar-vos antes de Agosto

Os juros e o principal."

 

A Formiga nunca empresta,

Nunca dá, por isso ajunta

-- "No Verão em que lidavas?"

À pedinte ela pergunta.

 

Responde a outra: "Eu cantava

Noite e dia, a toda a hora."

-- "Oh bravo! (Torna a Formiga)

Cantavas? Pois dança agora."

 

(La Fontaine)

versão de Bocage

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23
Jan 15

POEMA

Havia um menino

que tinha um chapéu

p'ra pôr na cabeça

por causa do Sol:

em vez de um gatinho

tinha um caracol

tinha um caracol

dentro do chapéu.

Fazia-lhe cócegas

no alto da cabeça,

por isso ele andava

depressa, depressa,

p'ra ver se chegava

a casa e tirava o chapéu,

saindo

de lá e caindo

o tal caracol.

Mas era, afinal,

impossível tal,

nem fazia mal

nem vê-lo, nem tê-lo

porque o caracol

era de cabelo!

 

Fernando Pessoa,

in Maria de Lourdes Varanda & Maria Manuel Santos,

Poetas de Hoje e de Ontem

do Século XII ao XXI

para os Mais Novos

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28
Out 14

NO COMBOIO DESCENDENTE

No comboio descendente

Vinha tudo à gargalhada,

Uns por verem rir os outros

E os outros sem ser por nada

No comboio descendente

De Queluz à Cruz Quebrada...

 

No comboio descendente

Vinham todos à janela,

Uns calados para os outros

E os outros a dar-lhes trela

No comboio descendente

De Cruz Quebrada a Palmela...

 

No comboio descedente

Mas que grande reinação!

Uns dormindo, outros com sono,

E os outros nem sim nem não

No comboio descendente

De Palmela a Portimão...

 

Fernando Pessoa,

in Poetas de Hoje e de Ontem

-- do Século XIII ao XXI

para os mais novos

(edição: Maria de Lourdes Varanda

& Maria Manuela Santos)

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03
Jul 14

FRUTOS

Pêssegos, pêras, laranjas,

morangos, cerejas, figos,

maçãs, melão, melancia,

ó música de meus sentidos,

pura delícia da língua;

deixai-me agora falar

do fruto que me fascina,

pelo sabor, pela cor,

pelo aroma das sílabas:

tangerina, tangerina.

 

Eugénio de Andrade,

Poetas de Hoje e de Ontem --

do Século XIII ao XXI, para os mais novos

(Maria de Lourdes Varanda & Maria Manuela Santos)

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26
Jun 14

O MACACO DECLAMANDO

Um mono, vendo-se um dia

Entre brutal multidão,

Dizem lhe deu na cabeça

Fazer uma pregação.

 

Creio que seria o tema

Indigno de se tratar,

Mas isso pouco importava,

Porque o ponto era gritar.

 

Teve mil vivas, mil palmas,

Proferindo à boca cheia

Sentenças de quinze arrobas,

Palavras de légua e meia.

 

Isto acontece ao Poeta,

Orador e outros que tais:

Néscios o que entendem menos

É o que celebram mais.

 

Fábulas de Bocage

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15
Mai 14

O INVERNO

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

Vem de sobretudo,

vem de cachecol,

o chão onde passa

parece um lençol.

 

Esqueceu as luvas

perto do fogão:

quando as procurou,

roubara-as um cão.

 

Com medo do frio,

encosta-se a nós:

dai-lhe café quente

senão perde a voz.

 

Velho, velho, velho.

Chegou o Inverno.

 

Eugénio de Andrade,

in Poetas de Hoje e de Ontem --

Do Século XIII ao XXI para os Mais Novos

(Maria de Lourdes Varanda e Maria Manuela Santos)

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04
Dez 13

O RAPAZ DO TRAPÉZIO VOADOR

O rapaz do trapézio voador

chegou à cidade numa tarde de grande calor

entrou num café pediu um licor

 

pediu outro e outro ainda

ao todo sete licores

cada um da sua cor

cada qual da cor mais linda

 

ao sétimo licor

sentiu uma dor

teve um sorriso amarelo

que ninguém aplaudiu

deu três voltas e caiu.

 

António José Forte,

in Maria de Lourdes Varanda e Maria Manuela Santos,

Poetas de Hoje e de Ontem

-- do Século XIII ao XXI para os Mais Novos

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25
Jun 13

JOANINHA

A joaninha bonita
que mora a meio do caminho
da rua das violetas
tem um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas.

E quando a gente lhe diz:
-- «Joaninha voa, voa,
não me digas que tens medo,
se voas serás feliz
que o teu pai está em Lisboa
foi lá comprar um brinquedo...»

A joaninha responde:
«Se és amigo verdadeiro
não me digas voa, voa,
-- voar sim, mas para onde? --
o meu pai não tem dinheiro
para ter ido a Lisboa...»

E a joaninha bonita
lá se fica no caminho
da rua das violetas
com um vestido de chita
todo ele encarnadinho
e cheio de bolinhas pretas...


Sidónio Muralha, 

Bichos, Bichinhos e Bicharocos

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21
Fev 13

CANTIGA DE EMBALAR

Faz ó-ó meu pequenino

-- Anda lá fora um rumor...

Voz do mar ou voz do vento?!

Faz ó-ó...

-- Seja quem for!

 

Vejo as estrelas brilhando

Através dessa vidraça.

Sinto-me triste, mais só...

E a minha voz vai cantando

-- Ó-ó... Ó-ó

 

António Botto

(in Maria de Lourdes Varanda & Maria Manuel Santos,

Poetas de Hoje e de Ontem -- Do Século XIII ao XXI -- Para os Mais Novos)

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