14
Dez 17

"Caudais de sangue desencadeados"

Caudais de sangue desencadeados

Pela injustiça milenária

A força bruta

 

O rio

Passam a chamar-lhe

História

 

Caudais de sangue

Entrecortados

Por uma luz que a injustiça

E a força bruta

Não conseguiram nunca

Contaminar

 

As linhas não se encontram

 

O contraponto

Não existe

 

Universos

Completamente alheios

Um ao outro

 

Os caudais de sangue

Prosseguem

Desaguam na história

E no que passaram a chamar

De progresso

 

Não há redenção

 

Voltado para a luz

Há outo plano

Há o crescer da árvore e do poema

O florir do amor

Irmandade imensa

Milenariamente

Escorraçada

 

Sobrevivendo apenas

Na ocultação profunda

Mesmo quando brilha

De dentro

Para todos os lados

 

Londres

6-7 de Agosto 90

 

Alberto de Lacerda, Átrio (1997)

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29
Ago 17

"Alívio"

Alívio

        O sonho desliza

Do sopé para o lago

Da falda

Para a crista da montanha

O peso

          formidando

                          de quando em onde

Se evola

             e nos deixa

                                livres

Totalmente reais

                          deslizando

Na viagem bifronte do sonho

 

Londres

27-28 de Julho 90

Alberto de Lacerda, Átrio (1997)

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05
Nov 14

CIDADE

Narrativa sem sequência

Sem progressão

 

 

Sem personagens

Principais

 

 

Xadrês infinito

De milhões de corpos

 

O xadrez das almas

Esse

Mais hermético ainda

No colosso da urbe

 

Londres

21 de Junho 90

 

Alberto de Lacerda

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25
Set 14

"Silêncio"

Silêncio

 

 

 

Mestre

 

 

 

O mestre

 

 

 

Supremo

 

Yèvre-le-Châtel

7 de Julho 90

 

Alberto de Lacerda

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25
Jul 14

YÈVRE-LE-CHÂTEL

Dias intensos

 

 

Verde

 

 

Onde paira

 

 

Refractada

 

 

A eternidade

 

Yèvre-le-Châtel

4-5 de Julho 90

 

 

Alberto de Lacerda, Átrio

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20
Jun 14

"A rosa canta"

A rosa canta

Para além da janela

Há muitos dias

 

 

 

Vai esmorecendo

 

 

Sem que ninguém

                             quase

Dê por isso

 

Yèvre-le-Châtel

4 de Julho 90

 

Alberto de Lacerda, Átrio

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04
Fev 14

"Café"

Café

 

 

Espiral de energia

 

 

Explosão deliciosa

Do prazer

 

Yevre-le-Châtel

26 de Junho 90

 

Alberto de Lacerda,

Átrio

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26
Jun 13

"Os pássaros"

Os pássaros

Estabelecem diálogos

Que ninguém entende

Felizmente

 

Como tudo o que é puro

De raiz

O que os pássaros dizem

Não se traduz

 

Yèvre-le-Châtel

25 de Junho 90

 

Alberto de Lacerda,

Átrio

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28
Jan 13

"Eras o príncipe"

Eras o príncipe

Das varandas lentas das tardes de província

 

Eras a sabedoria simples dos dias

Um após outro

 

Eras uma espécie de silêncio

 

Ou anjo

Sem o saber

 

Daí o teu traço estreme

 

Tuas palavras parcas

 

         

                       Londres, 13 de Abril de 1988

 

Alberto de Lacerda

in Série Poeta -- Homenagem a Júlio / Saul Dias

edição de valter hugo mãe

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24
Abr 12

IMAGEM

No filme azul do desdobrado céu

decantarei a mínima magia

das sensações mais puras, melodia

da minha infância, onde era apenas Eu.

 

Da realidade nua desce um véu

que, já sem mar, apenas maresia,

me vem tecer aquela chuva fria

que prende esta janela ao claro céu.

 

Despido o ouropel desvalioso,

já não apenas servo, mas o Rei

da luz da minha lâmpada romeira,

 

assim procuro o centro misterioso

do mundo que hoje habito, onde serei

concêntrica expressão da vida inteira.

 

Alberto de Lacerda

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