26
Mar 17

CASCAIS

Acabava ali a Terra

Nos derradeiros rochedos,

A deserta árida serra

Por entre os negros penedos

Só deixa viver mesquinho

Triste pinheiro maninho.

 

E os ventos despregados

Sopravam rijos na rama,

E os céus turvos, anuviados,

O mar que incessante brama

Tudo ali era braveza

De selvagem natureza.

 

Aí, na quebra do monte,

Entre uns juncos mal medrados,

Seco o rio, seca a fonte,

Ervas e matos queimados,

Aí nessa bruta serra,

Aí foi um Céu na Terra.

 

Ali sós no mundo, sós,

Santo Deus!, como vivemos!

Como éramos tudo nós

E de nada mais soubemos!

Como nos folgava a vida

De tudo o mais esquecida!

 

Que longos beijos sem fim,

Que falar dos olhos mudo!

Como ela vivia em mim,

Como eu tinha nela tudo,

Minha alma em sua razão,

Meu sangue em seu coração!

 

Os anjos aqueles dias

Contaram na eternidade:

Que essas horas fugidias,

Séculos na intensidade,

Por milénios marca Deus

Quando as dá aos que são seus.

 

Ai!, sim! foi a tragos largos,

Longos, fundos que a bebi

Do prazer a taça – amargos

Depois... depois os senti

Os travos que ela deixou...

Mas como eu ninguém gozou.

 

Ninguém: que é preciso amar

Como eu amei – ser amado

Como eu fui; dar, e tomar

Do outro ser a que se há dado,

Toda a razão, toda a vida

Que em nós se anula perdida.

 

Ai, ai!, que pesados anos

Tardios depois vieram!

Oh!, que fatais desenganos,

Ramo a ramo, a desfizeram

A minha choça na serra,

 

Lá onde de acaba a Terra!

Se o visse... não quero vê-lo

Aquele sítio encantado.

Certo estou não conhecê-lo,

Tão outro estará mudado,

Mudado como eu, como ela,

Que a vejo sem conhecê-la!

 

Inda ali acaba a Terra,

Mas já o céu não começa;

Que aquela visão da serra

Sumiu-se na treva espessa,

E deixou nua a bruteza

Dessa agreste natureza.

 

Almeida Garrett, Fiolhas Caídas (1853

 

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07
Dez 10

BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
       Que é tão bela,
       Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
       Colhe a vela,
       Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
       Mas cautela,
       Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
       Só de vê-la,
       Oh pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
       Foge dela
       Oh pescador!

Almeida Garrett
publicado por RAA às 16:58 | comentar | favorito