16
Mai 17

ÚLTIMO SONETO

Se me sobrevivesse, imperecida,

A memória da angústia que sofri

Na desordem do tempo em que vivi,

Já tinha fundamento a minha vida.

 

Debrucei-me na História, mas não vi

outra idade com esta parecida:

Tantos caminhos, tantos! e perdida,

A noção de chegar até aqui!

 

Árvore do passado! já não cabem

mais ilusões à sombra dos teus ramos...

E os teus frutos, agora, a nada sabem!

 

Poesia! onde me levas? onde vamos,

se as fórmulas antigas não nos abrem

O mistério da treva que sondamos!?

 

Carlos Queirós, Desaparecido (1935)

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15
Jan 15

EX-LIBRIS

Todos bebem o seu vinho,

De qualquer modo, -- mesmo os que não bebem:

Porque também é vinho o que concebem

Para esquecer o caminho.

A Poesia, é o meu vinho;

-- Que importa o que os outros bebem?!

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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01
Out 14

O INTERVALO

Sem palavras, sem gestos, sem um esforço,

Que a vida, francamente, nos mereça,

Quantas vezes pendemos a cabeça

E os braços, como ao peso dum remorso!

 

Interrogamos a memória -- e ela

Finge que nada sabe; a consciência,

Também nada nos diz. Feliz ausência!

-- Contudo, o tempo está de sentinela.

 

Como ovelhas perdidas na montanha,

Que não ouvissem do pastor a avena.

Cismamos em que nada vale a pena...

E esperamos que o novo dia venha.

 

Carlos Queirós, Desaparecido

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31
Jul 14

CANÇÃO DO MUNDO PERDIDO

Menino: o teu mundo,

Também já foi meu;

Tão belo e profundo,

Tão perto do céu!

 

Mas o Tempo veio

E fez-me (tão cedo!)

Acordar, a meio

Do sonho mais ledo.

 

A chave emprestada,

Quis restituída;

Ou antes: trocada

P'la chave da vida.

 

Que mundo tristonho,

Agora, é o meu!

Tão pobre de sonho,

Tão longe do céu!

 

Quem tal o diria?!

 

O mundo que um dia

Também será teu...

 

Carlos Queirós

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11
Jun 14

AMIZADE

De mais ninguém, senão de ti, preciso:

Do teu sereno olhar, do teu sorriso,

Da tua mão pousada no meu ombro.

Ouvir-te murmurar: -- «Espera e confia!»

E sentir converter-se em harmonia,

O que era, dantes, confusão e assombro.

 

Carlos Queirós,

Desaparecido (1935)

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06
Mai 14

PASTORAL

Por ser tão leve o teu passar

Na estrada, à tarde, quando vens

De pôr o gado que não tens,

A pastar...

 

Por ser tão brando o teu sorrir,

Tão cheio de feliz regresso

Do longe prado, onde apeteço

Contigo ir...

 

Por ser tão breve o teu querer

Alguém que perto de ti passe

E, porque a tarde cai, te abrace,

Sem nada te dizer...

 

Por ser tão calmo o teu sonhar

Que já é tempo de não ter

Esse rebanho de pascer,

Mas outro de amamentar...

 

É que eu me perco no caminho

Do grande sonho sem janelas,

De estar contigo no moinho,

Sem o moleiro nem as velas.

 

Carlos Queirós, Desaparecido

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23
Jan 14

AROMA

Não invejo quem possa merecer

A realidade da tua presença.

Prefiro imaginar-te de intangível matéria,

Com medo de acordar a Beleza que sonmha

Na inefável harmonia dos teus gestos...

 

Assim fosse o teu corpo uma espécie de aroma,

Que apenas preenchesse o ar que eu respirasse!

 

Carlos Queirós,

Desaparecido (1935)

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02
Out 13

CLAMAVI AD TE

Apenas hoje! Apenas uma vez,

Fala de modo que a verdade seja

Tão clara e transparente, que eu a veja

Num cristal da mais pura limpidez!

 

Talvez seja loucura o que deseja

A minha insaciedade. Sim, talvez...

Que tu fosses, falando, a outra que és,

Com a alma nos lábios, quando beija.

 

Mal empregado privilégio, a fala,

Que traduz a verdade em que pensamos,

As palavras gastando em ocultá-la!

 

Que seja assim quando se odeia, vamos...

Mas para quê se dissimula ou cala,

Quando tudo nos diz que nos amamos?!

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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25
Jul 13

MARCHA QUASE FÚNEBRE

Silencioso e tranquilo

Como um rastro de desgraça,

No outro lado da praça,

O lento cortejo passa

Das meninas do asilo.

 

São todas órfãs? -- Pior:

São todas tristes e feias.

Saias pretas, grossas meias...

Corre-lhes sangue nas veias

Por milagre do Senhor.

 

Que fazem durante o dia?

-- Aprendem a soletrar.

A coser... E o sol? E o ar?

Quando pensam em lhes dar

Uma lição de alegria?

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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28
Jun 13

LEGENDA

Toda a gente dizia que ele havia

De ser, nesta vida, alguém;

E a mãe ouvia e sorria,

Contente de ser a mãe.

 

O menino cresceu; é hoje um homem;

E, embora por alguém o tomem,

Quando o vêem passar, dizem: -- Coitado!

É um poeta... (um aleijado).

 

Carlos Queirós,

Desaparecido

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