12
Abr 17

"o copo sobre a mesa"

o copo sobre a mesa

transparente

para ser cheio

da tua vida

espessa até ao cimo

 

Fernando Assis Pacheco, Memórias do Contencioso (1976)

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12
Nov 13

Memórias do Contencioso


 

autor: Fernando Assis Pacheco (Coimbra, 1.II.1937 -- Lisboa, 30.XI.1995)

título: Memórias do Contencioso

colecção: «Reportório de Cegos» #1

editora: Heptágono

local: Lisboa

ano: 1976

págs.: 8

dimensões:2,4x14,5xo,1 cm. (brochado)

impressão: J. J. Magalhães, Lisboa
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04
Jul 13

"não pude amar mais nada"

não pude amar mais nada

não pude amar mais ninguém

e mesmo que te minta

é o contrário disso

 

e mesmo que te minta

é a verdade seca

posta ali às avessas;

não pude amar mais claro

 

Fernando Assis Pacheco,

Memórias do Contencioso

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30
Jan 12

...

Por uma cona assim eu perco o tino

e tudo o mais desamo que não faça

como rata em soneto de Aretino:

a um caralho dar frequente caça

 

porque essa cona tem da melhor raça

a traça que se diz «donaire fino»

se rosto fora ela e não conaça

onde o tesão divino toca o sino

 

com uma cona assim aquel'menino

Cupido troca as setas pela maça

martela meus colhões num desatino

que do Rossio ecoa até à Graça

 

ela é a melhor rata que dá caça

a este meu javardo de inquilino

 

Lisboa

28-XII-81

 

Fernando Assis Pacheco

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09
Jan 12

OLIVAIS, COIMBRA

Era de noite e eu pensava

não: era de noite uma outra noite mais antiga do que a narrativa deixa subentender

não: era de noite agora e na hora e eu que me enrolava pensando na morte do meu

                                                                                                                              [corpo

 

não: era de noite àquela hora a alegria

das casas funde-se com um estalido cruel

diante do poema não: quando à garganta vai subir

o primeiro poema informe

 

o pai dormia (uma cidade dormia) não: no meio do Verão

em Coimbra atacado pelo perfume aflitivo das hortênsias ou era

um clic na madeira vendo-se longe o Tovim o Picoto luzes

inverosímeis

 

essa noite é que o miúdo pensava na brevidade de tudo isto

 

Fernando Assis Pacheco

publicado por RAA às 19:55 | comentar | favorito
01
Jan 12

PESO DE OUTONO

Eu vi o Outono desprender suas folhas,

cair no regaço de mulheres muito loucas.

Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo

na cidade de Heidelberg pronta para a neve

saboreavam tepidamente a sua ignorância.

 

Eu vi as amantes ensandecerem

com esse peso de Outono. Perderem as forças

com o Outono masculino e sangrento.

Os gritos a meio da noite

das amantes a meio da loucura voavam

como facas para o meu peito.

 

Alguns poetas li-os melhor no Outono,

certos amores só poderia tê-los,

como tive, nos dias doce da vindima.

 

Fernando Assis Pacheco 

publicado por RAA às 18:06 | comentar | favorito
24
Dez 11

...

de todas a mais volátil

é a categoria tempo

 

Fernando Assis Pacheco

publicado por RAA às 02:45 | comentar | favorito
01
Nov 10

...

e sequem-se-me os dedos a cabeça
estoire e não fique de tudo uma palavra
se a maldição for tanta que eu te esqueça

e não reste sequer o chão e não de quantas ruas e
não já reste cidade

e seja a memória deste homem um escárnio ocultado por quinze
                                  [gerações de vindouros
com seus cães que se deitam aos pés das pessoas e parecem
                                   [adivinhar a linguagem monstruosa
das narinas resfolegando

se a maldição for tanta e tão pérfida
que eu te esqueça na morte, que eu te esqueça

Fernando Assis Pacheco
publicado por RAA às 13:33 | comentar | favorito
29
Set 10

...

um relâmpago assombra
esta nudez

entra pelo sexo

calcina
as espirais da melancolia

e eu ardo (ardo!)
em lavaredas altas

resina indefesa

Fernando Assis Pacheco
publicado por RAA às 11:59 | comentar | favorito
22
Dez 08

...

Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade

a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade

a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade

azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade

Lisboa
28-IV-94
Fernando Assis Pacheco
publicado por RAA às 23:39 | comentar | favorito