02
Abr 17

"Se a morte fosse uma casa branca"

Se a morte fosse uma casa branca

e eu tivesse uma palavra breve e obscura.

Se a morte fosse um sono tão leve

que o murmúrio do vento a deixasse enlouquecida.

Se a morte fosse o instante entre o ir e voltar

uma pedra redonda e frágil atirada ao sono

do mundo.

Reunia os meus mortos, falava-lhes da sombra

que habita nas coisas

das malvas rodeando o poço.

Talvez a música do vento nos salgueiros

ou a canção das abelhas ardesse

intacta por dentro das palavras.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta (2001)

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05
Set 16

"Partilhar o comum da vida"

Partilhar o comum da vida

os laços

a claridade de alguns gestos.

Inventar os mapas

as estações minuciosas da melancolia.

Aprender o breviário do estio.

Lavar o olhar

na luz morosa da tarde

em cada rosto

em cada pedra.

Renovar o espanto.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta

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04
Mar 15

"Sílabas tão leves"

Sílabas tão leves

que nem a água

estremece.

 

Fernando Jorge Fabião, Na Orla da Tinta

publicado por RAA às 19:29 | comentar | favorito (1)
18
Set 14

"Não sei de outra medida"

Não sei de outra medida

de outra minúcia de outro olhar

 

Não sei de outra voz

reclinada na linguagem do ar

ou na cegueira de um astro

 

Não sei de outra escassez

ou sabor

sem a luz de um ombro. Não sei.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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02
Jul 14

...

Em certos dias

há um júbilo de claridade

um domínio absoluto de rectidão

e louvor

às vezes, basta um ínfimo gesto

para acender a palavra branca

a voragem da sílabas

na orla da tinta.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da tinta

publicado por RAA às 18:41 | comentar | favorito
03
Abr 14

"Se voltares o rosto"

Se voltares o rosto

(devagar)

alumias as folhas nuas

da noite.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

publicado por RAA às 13:14 | comentar | favorito
17
Jul 13

"A oferenda foi breve: duas camélias."

A oferenda foi breve: duas camélias.

Duas crateras de luz.

Duas espigas de água a arder

encostadas à claridade feroz

da tarde.

Dois remos.

Duas ânforas de sal, iluminando

a pele.

 

Apenas duas camélias, mãe.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

publicado por RAA às 13:48 | comentar | favorito
21
Jun 13

"Todo o Verão tem a sua sombra"

Todo o Verão tem a sua sombra

a sua pequena morte

homens lentos nas adegas

(poços de frescura)

imaginam ofícios sublimes

presságios

pequenas conjuras

 

Todo o Verão tem o seu assombro

paisagens altas

onde principio a escrever

(num silêncio de sinos)

vocábulos escassos, dissonâncias

numa saudade de rosas e luz estilhaçada.

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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06
Jun 13

"Escrever, tecer um anel"

Escrever, tecer um anel

em redor das coisas

A tinta prolonga

o sangue

consome o saber das sílabas

 

Com um pé na norma

e outro na errância

navego no coração do vento

 

Respiro no milagre

dos gestos ínfimos e graves

 

Faço de espanto

a regra e o sinal

 

Talvez adormeça

encostado ao azul

na mais pura ignorância da morte

 

Fernando Jorge Fabião,

Na Orla da Tinta

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12
Jul 11

CADERNO

As linhas das mãos
prolongam os veios (dos campos).
Alguém recolhe as últimas estrelas
(no outro lado do coração).
Nenhum agravo ou ferida.
Apenas um caderno aberto
ante o assombro da escrita.

Fernando Jorge Fabião
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