05
Abr 17

...

«O que os poemas querem dizer, só eles sabem o que querem dizer.»

António Carlos Cortez, «Herberto Helder -- O nome mais obscuro»
JL-Jornal de Letras, Arte e Ideias,
Lisboa, 29 de Maio de 2013
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19
Jan 12

FONTE

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta

agora entre águas e silêncios.

Nada te acorda -- nem as folhas dos ulmos,

nem os rios, nem os girassóis,

nem a paisagem arrebatada.

-- Espero do tempo novo todos os milagres,

menos tu.

 

Corres somente no meu sangue memoriado

e sobes, carne das palavras outra vez

imperecíveis e virgens.

-- Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,

outras mãos mais puras

e mais sagazes,

e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude

inteligente.

 

-- Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.

Mas tu estarás mais branca com a boca selada

pelas pedras lisas.

E sei que terei o amor e o pão e a água

e o sangue e as palavras e os frutos.

Mas tu , ó rosa fria,

ó odre das vinhas antigas e limpas?

 

Do tempo novo espero

o sinal ardente e incorrupto,

mas levo os dedos ao teu nome prolongado,

ó cerrada mãe, levo

os dedos vazios --

e a tua morte cresce por eles totalmente.

 

Herberto Helder

publicado por RAA às 11:36 | comentar | favorito
13
Mar 11

...

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão -- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
-- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder
publicado por RAA às 23:21 | comentar | favorito
10
Dez 10

...

o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder
publicado por RAA às 15:12 | comentar | favorito
25
Set 10

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Tocaram-me na cabeça com um dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
É assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
Herberto Helder
publicado por RAA às 12:49 | comentar | favorito