04
Abr 17

A QUEDA

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro à míngua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma -- e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra -- em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
-- Vencer às vezes é o mesmo que tombar --
E como ainda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso...

................................................................................................

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...


Mário de Sá-Carneiro, Dispersão (1914) /
Poemas Escolhidos (edição de Clara Rocha, s.d.)
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15
Jan 14

RODOPIO

Volteiam dentro de mim,

Em rodopio, em novelos,

Milagres, uivos, castelos,

Forcas de luz, pesadelos,

Altas torres de marfim.

 

Ascendem hélices, rastros...

Mais longe coam-me sóis;

Há promontórios, faróis,

Upam-se estátuas de heróis,

Ondeiam lanças e mastros.

 

Zebram-se armadas de cor,

Singram cortejos de luz,

Ruem-se braços de cruz,

E um espelho reproduz,

Em treva, todo o esplendor...

 

Cristais retinem de medo,

Precipitam-se estilhaços,

Chovem garras, mantas, laços...

Planos, quebras e espaços

Vertiginam em segredo.

 

Luas de oiro se embebedam,

Rainhas desfolham lírios;

Contorcionam-se círios,

Enclavinham-se delírios.

Listas de som enveredam...

 

 

Virgulam-se aspas com vozes,

Letras de fogo e punhais;

Há missas e bacanais,

Execuções capitais,

Regressos, apoteoses.

 

Silvam madeixas ondeantes,

Pungem lábios esmagados,

Há corpos emaranhados,

Seios mordidos, golfados,

Sexos mortos de anseantes...

 

(Há incensos de esponsais,

Há mãos brancas e sagradas,

Há velhas cartas rasgadas,

Há pobres coisas guardadas --

Um lenço, fitas, dedais...)

 

Há elmos, troféus, mortalhas,

Emanações fugidias,

Referências, nostalgias,

Ruínas de melodias,

Vertigens, erros e falhas.

 

Há vislumbres de não-ser,

Rangem, de vago, neblinas,

Fulcram-se poços e minas,

Meandros, pauis, ravinas,

Que não ouso percorrer...

 

Há vácuos, há bolhas de ar,

Perfumes de longes ilhas,

Amarras, lemes e quilhas --

Tantas, tantas maravilhas

Que não se pode sonhar!...

 

Mário de Sá-Carneiro,

Poemas Escolhidos

(edição de Clara Rocha)

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08
Out 13

QUASE

Um pouco mais de sol -- eu era brasa.

Um pouco mais de azul -- eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho -- ó dor! -- quase vivido...

 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim -- quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!

 

De tudo houve um começo... e tudo errou...

-- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... --

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou...

 

Momentos de alma que desbaratei...

Templo aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...

 

Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol -- vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...

 

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...

 

...............................................................

...............................................................

 

Um pouco mais de sol -- e fora brasa,

Um pouco mais de azul -- e fora além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Mário de Sá-Carneiro,

Poemas Escolhidos

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22
Set 10

VONTADE DE DORMIR

Fios de oiro puxam por mim
A soerguer-me na poeira --
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...


........................................................

-- Ai que saudades da morte...

........................................................

Quero dormir... ancorar...


Arranquem-me desta grandeza!
--P'ra que me sonha a beleza,
Se a não posso transmigrar?...

Mário de Sá-Carneiro
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