15
Nov 17

POEMETO IRÔNICO

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

 

Curiosidade sentimental

Do seu aroma, da sua pele.

Sonhas um ventre de alvura tal,

Que escuro o linho fique ao pé dele.

 

Dentre os perfumes sutis que vêm

Das suas charpas, dos seus vestidos,

Isolar tentas o odor que tem

A trama rara dos seus tecidos.

 

Encanto a encanto, toda a prevês.

Afagos longos, carinhos sábios,

Carícias lentas, de uma maciez

Que se diriam feitas por lábios...

 

Tu te perguntas, curioso, quais

Serão seus gestos, balbuciamento,

Quando descerdes na espirais

Deslumbradoras do esquecimento...

 

E acima disso, buscas saber

Os teus institntos, suas tendências...

Espiar-lhe na alma por conhecer

O que há de sincero nas aparências.

 

E os teus desejos ferventes vão

Batendo as asas na irrealidade...

O que tu chamas tua paixão,

É tão-somente curiosidade.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

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30
Ago 16

A CANÇÃO DE MARIA

Que é de ti melancolia?...

Onde estais, cuidados meus?...

Sabei que a minha alegria

É toda vinda de Deus...

Deitei-me triste e sombria,

E amanheci como estou...

Tão contente! Todavia

Minha vida não mudou.

Acaso enquanto dormia

Esquecida de meus ais,

Um sonho bom me envolvia?

Se foi, não me lembro mais...

Mas se foi sonho, devia

Ser bom demais para mim...

Senão, não me sentiria

Tão maravilhada assim.

 

Ó minha linda alegria,

Trégua dos cuidados meus,

Por que não vens todo dia,

Se és toda vinda de Deus?

 

 

Clavadel, 1913.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbos)

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25
Jun 16

CHAMA E FUMO

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

Medita no que vais fazer:

O fumo vem, a chama passa...

 

Gozo cruel, ventura escassa,

Dono do meu e do teu ser,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Tanto ele queima! -- e, por desgraça,

Queimado o que melhor houver,

O fumo vem, a chama passa...

 

Paixão puríssima ou devassa,

Triste ou feliz, pena ou prazer,

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

A cada par que a aurora enlaça,

Como é pungente o entardecer!

O fumo vem, a chama passa...

 

Antes, todo ele é gosto e graça.

Amor, fogueira linda a arder!

Amor -- chama, e, depois, fumaça...

 

Porquanto, mal se satisfaça,

(Como te poderei dizer?...)

O fumo vem, a chama passa...

 

A chama queima. O fumo embaça.

Tão triste que é! Mas, tem de ser...

Amor?... -- chama, e, depois, fumaça:

O fumo vem, a chama passa...

 

 

Teresópolis, 1911.

 

Os Melhores Poemas de Manuel Bandeira

(edição de Francisco de Assis Barbosa)

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10
Abr 12

A CAMÕES

Quando n'alma pesar de tua raça

a névoa da apagada e vil tristeza,

busque ela sempre a glória que não passa,

em teu poema de heroísmo e de beleza.

 

Gênio purificado na desgraça,

tu resumiste em ti toda a grandeza:

poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça

o amor da grande pátria portuguesa.

 

E enquanto o fero canto ecoar na mente

da estirpe que em perigos sublimados

plantou a cruz em cada continente,

 

não morrerá sem poetas nem soldados

a língua que cantaste rudemente

as armas e os barões assinalados.

 

Manuel Bandeira

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06
Mar 12

A ESTRELA

Vi uma estrela tão alta,

vi uma estrela tão fria!

Vi uma estrela luzindo

na minha vida vazia.

 

Era uma estrela tão alta!

Era uma estrela tão fria!

Era uma estrela sòzinha

luzindo no fim do dia.

 

Por que da sua distância

para a minha companhia

não baixava aquela estrela?

Por que tão alta luzia?

 

E ouvia-a na sombra funda

responder que assim fazia

para dar uma esperança

mais triste ao fim do meu dia.

 

Manuel Bandeira 

publicado por RAA às 12:46 | comentar | favorito
07
Fev 12

A ARANHA

Não te afastes de mim, temendo a minha sanha

e o meu veneno... Escuta a minha triste história:

Aracne foi meu nome e na trama ilusória

das rendas florescia a minha graça estranha.

 

Um dia desafiei Minerva. De tamanha

ousadia hoje expio a incomparável glória...

Venci a deusa. Então, ciumenta da vitória,

ela não ma perdoou: vingou-se e fez-me aranha!

 

Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura.

Inspiro horror... Ó tu que espias a urdidura

da minha teia, atenta ao que o meu palpo fia:

 

Pensa que fui mulher e tive dedos ágeis,

sob os quais incessante e vária a fantasia

criava a pala sutil para os teus ombros frágeis.

 

Manuel Bandeira

publicado por RAA às 11:41 | comentar | favorito
06
Jan 12

RENÚNCIA

Chora de manso e no íntimo... Procura

curtir em queixa o mal que te crucia:

o mundo é sem piedade e até riria

da tua inconsolável amargura.

 

Só a dor enobrece e é grande e é pura.

Aprende a amá-la que a amarás um dia.

Então ela será tua alegria

e será, ela só, tua ventura...

 

A vida é vã como a sombra que passa...

Sofre sereno e d'alma sobranceira,

sem um grito sequer, tua desgraça.

 

Encerra em ti tua tristeza inteira,

e pede humildemente a Deus que a faça

tua doce e constante companheira...

 

Manuel Bandeira

publicado por RAA às 15:44 | comentar | favorito
16
Nov 11

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro de Babilônia

                                                                               [num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

 

Manuel Bandeira

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09
Nov 10

IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor

Imagino Irene entrando no céu:
-- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
-- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Manuel Bandeira
publicado por RAA às 14:23 | comentar | favorito
15
Set 10

ACALANTO DE JOHN TALBOT

Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer,
Pode descansar,
Que te guardo eu.

Manuel Bandeira
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