30
Dez 16

DIA 1

Hoje não há leite.

O alumínio

não foi 

à flor do lume.

 

Que silêncio

quadrado

na cozinha!

Lá fora

 

-- um frio só

de rua fria.

Que risco

 

tão um

o número 

deste dia!

 
 
Pedro Alvim, A Esfera dos Dias (1985)
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25
Set 16

APÓSTROFO

Assim longos o dia fraccionavam pelas casas do Xadrez dois jogadores. Era pela tarde, quando o Sol oblíquo e fulvo se opõe já ao ponto primeiro do seu arco. Altas heras p'lo pátio desenhavam de sombra e luz cavalos diminutos -- e tão assim era, tão assim, tão, que logo as palavras saqueadas no salto morriam dos Cavalos. A caminho de Agosto abelhas raras doçura buscavam nos peões -- sílabas inseridas em minutos, outro era, porém, ali, o néctar; ora o Rei uma casa aventurando, ora o diagonal perfil dos Bispos, ora as Torres tomando posições, ora a branca Dama o véu do gesto de quem pela mão a deslocava ao longo do tabuleiro desdobrando... Assim tudo era -- e 'té a métrica no lapso das sombras e da luz um apóstrofo ao ritmo breve dava para que uma letra só não ferisse o medido gesto de quem longo ao longo das casas o finito no silêncio inseria do infinito. Ao longo do tabuleiro os jogadores assim pelas heras desenhados, como quem subtil desdobra rédeas e o instante sopesa do equilíbrio, apóstrofos colocavam nos Cavalos -- e a tarde, assim sustida, era e não era o galope disparado que habita o passo do dia demorado.

 

Pedro Alvim, Os Jogadores de Xadrez (1986)

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05
Jan 16

ESPELHO

Entre um pão

e outro pão,

o miolo nos dedos

 

-- que bolinhas

de pão

na toalha da mesa!

 

Longe as vendo

assim

tão concretas

 

-- sou como Deus

a Terra criando

e os mais planetas...

 

Pedro Alvim, A Esfera dos Dias (1985)

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01
Abr 11

A Esfera dos Dias

autor: Pedro Alvim
título: A Esfera dos Dias
colecção: «Caminho da Poesia»
editora: Editorial Caminho
local: Lisboa
ano: 1985
págs.: 38
dimensões: 18,5x13,5x0,2 cm. (brochado)
impressão: Guide-Artes Gráficas
capa: José Araújo
tiragem: 800
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12
Dez 10

RUA

Mil coisas me contavam,
mil números,
mil coisas decifradas
e mais uma.

Sempre de perfil
no umbral do mundo,
a porta não entrando
das certezas,

às doutrinas fugia
e suas poses.
E em meu ombro adeus

cerrou-se a porta:
«Ó homem de esguelha
como quem ouve vozes!»

Pedro Alvim
publicado por RAA às 19:22 | comentar | favorito
11
Ago 10

SOL

Sete homens foram presos
quando pela noite
os cabelos puxavam
a uma rapariga.

Algures na cidade
eles só buscavam
o dia sumido.
«Olha ali o sol»

-- dissera um
na solidão do Metro. Era
uma cabeça loira

-- e mal os raios tocaram acesos
ali se prenderam
e foram presos.

Pedro Alvim
publicado por RAA às 14:26 | comentar | favorito
17
Jul 10

ADEUS

...Agora
da janela
o que dentro
não está:

fino cotovelo
nuca d'oiro,
joelho dobrando
a esquina só.

«Eh, eh» -- me digo.
E faço um café
que me não sabe.

Bebe-o, noite!,
e que o dia em ti
não mais acabe!|

Pedro Alvim
publicado por RAA às 13:37 | comentar | favorito