27
Mar 17

NUNCA O AMOR FOI BREVE...

Nunca o Amor foi breve,
quando deu fruto.
(Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço!)

Sagre-o a Dor, nenhum Amor é vão.
Exulta, voz das ondas!
-- O seu Amor floriu, deu fruto,
como as árvores.

Cantai, aves do ar,
em volta do seu berço.
Cintilantes do Sol, saltai ao Sol,
peixes do Mar.

nunca o Amor foi triste. Nem a Vida
foi menos bela.
Baila contente, lágrima!,
baila nos olhos dela.

Sebastião da Gama,
Pelo Sonho É que Vamos
(póst., 1953)
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04
Set 16

SOMOS DE BARRO

Somos de barro. Iguais aos mais.

Ó alegria de sabê-lo!

(Correi, felizes lágrimas,

por sobre o seu cabelo!)

 

Depois de mais aquela confissão,

impuros nos achámos;

nos descobrimos

frutos do mesmo chão.

 

Pecado, Amor? Pecado fora apenas

não fazer do pecado

a força que nos ligue e nos obrigue

a lutar lado a lado.

 

O meu orgulho assim é que nos quer.

Há-de ser nosso o pão, ser nossa a água.

Mas vencidas os ganhem, vencedoras,

nossa vergonha e nossa mágoa.

 

O nosso Amor, que história sem beleza,

se não fora ascensão e queda e teimosia,

conquista... (E novamente queda e novamente

luta, ascensão...) Ó meu Amor, tão fria,

 

se nascêramos puros, nossa história!

 

Chora sobre o meu ombro. Confessámos.

E mais certos de nós, mais um do outro,

mais impuros, mais puros, nós ficámos.

 

Sebastião da Gama, Pelo Sonho É que Vamos 

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21
Jan 15

OBSESSÃO

Quero a Noite completa, desumana.

A Noite anterior. A Noite virgem

de mim. A Noite pura. Quero a Noite,

aonde é impossível encontrar-te.

 

Que não há rio nem rua nem montanha

nem floresta nem prado nem jardim

nem pensamento algum nem livro algum

em que não me apareças sorridente.

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

publicado por RAA às 22:52 | comentar | favorito
19
Jan 15

TEMPESTADE

O Vento enchia o Mundo. Mal deixava

lugar para a tremenda voz das ondas.

 

Mas era o Mar apenas que se ouvia.

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

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19
Set 14

O SONHO

Pelo Sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo Sonho é que vamos.

 

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é o dia-a-dia.

 

Chegamos? Não chegamos?

 

-- Partimos. Vamos. Somos.

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

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08
Abr 14

CANTIGA DE AMOR

De onde estou, tão longe,

vejo-te à janela.

(Não te vejo, não:

vejo-te sòmente

na imaginação.)

 

Onde estou, tão longe,

chega a tua voz.

Oiço um longo brado

que é por mim que chama.

Oh que lindo som!

-- e é imaginado...

 

Onde vou te levo,

minha doce Amiga.

Tenho-te onde estou.

A cabeça dói-me

porque o Sonho a cansa?

-- Onde a descansara,

se te não trouxera

mesmo na lembrança?

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

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14
Fev 14

IMAGEM

Ó corpo feito à imagem

de meu desejo e meu amor,

que vais comigo de viagem

pra onde eu for,

 

que mar é este em que andamos,

há três noites bem contadas

e não tem ventos nem escolhos

nem ondas alevantadas?

 

que sol é este, que aquece,

mas sereno, tão sereno,

que nem te põe menos branca

nem a mim põe mais moreno?

 

que paz é esta, nas horas

mais violentas e bravas?

(Sorrias: ias falar.

Sorrias e não falavas.)

 

que porto é este? esta ilha?

que terra é esta em que estamos?

(Era uma nuvem, de longe...

Deixou de o ser, mal chegámos.)

 

e este caminho, onde leva?

e onde acaba este jardim

que é tão em mim que é em ti?

que é tão em ti que é em mim?...

 

Ó alma feita à imagem

do sonho que me desmede

-- que sede é esta que temos

que é mais água do que sede?

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

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07
Jun 13

POESIA DEPOIS DA CHUVA

Depois da chuva o Sol -- a graça.

Oh! a terra molhada iluminada!

E os regos de água atravessando a praça

-- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

 

Canta, contente, um pássaro qualquer.

Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.

O fundo é branco -- cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

 

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado

antes do Sol, não duvidava agora.)

Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual

às manhãs do princípio!

 

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.

Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...

Flor levada nas águas, mansamente...

 

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)

 

Sebastião da Gama,

Pelo Sonho É que Vamos

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28
Dez 11

MORDAÇA

Puseram-lhe na boca uma mordaça...

 

Mas o Poeta era Poeta

e tinha que falar.

 

Fez um esforço enorme,

puxou a voz como quem golfa sangue,

e a mordaça soltou-se-lhe da boca.

 

Porém, não era já mordaça:

 

-- Agora,

era um poema a queimar

os ouvidos das turbas inimigas

que, na praça, o tinham querido calar.

 

Sebastião da Gama

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17
Abr 11

Pelo Sonho É que Vamos

autor: Sebastião da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, 10.IV.1924 - Lisboa, 7.II.1952)
título: Pelo Sonho É que Vamos
prefácio: Ruy Belo
edição: 3.ª
colecção: «Poesia»
editora: Edições Ática
local: Lisboa
ano: 1979
págs.: 77
formato: 20x14x0,6 cm. (brochado)
impressão: Tipografia Macário, Lisboa
capa: desenho de Almada Negreiros
obs.: extratextos com retrato do Autor e fac-símiles de alguns poemas
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