02
Dez 18

"Abandono-te todas as noites,"

Abandono-te todas as noites,

Troco-te pelos outros,

Por mim

Ou pelo simples sono que sempre me enganou

Desde criança.

 

Deixo-te ficar tantas vezes à luz duma velha lua

De queixo retorcido e rainha das bruxas

E em lugares frequentados por cães que defecam

Com o mudo amor dos donos

Sigilosamente

À trela.

 

Não devias esperar.

Este amor não é feito de sangue, a minha alma não anda nessa rua deserta,

Nem vai, pé ante pé, contemplar o teu rosto,

Deitar-se em seguida sobre o teu corpo gelado

E limpar-te os olhos do frio

De uma madrugada

Impudica.

 

Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês (2008)

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09
Out 18

O ROUXINOL

Quando foge o Sol

e aparece o luar,

o rouxinol

começa a cantar.

 

A noite toda se encanta,

a noite fica encantada,

porque o rouxinol canta

para a sua namorada.

 

E a namorada, quieta,

ouve na noite que é bela

esse rouxinol-poeta,

esse rouxinol querido

 

que vai ser o marido

dela, só dela.

 

Sidónio Muralha, O Rouxinol e a Sua Namorada (1983)

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04
Out 18

OS REMORSOS

Os remorsos são restos de passado,

gavinhas enroladas na memória

que a vão entretecendo vagamente,

docemente, quais críticos serenos

que não matam mas ferem como agulhas

espetadas no nosso coração.

Arrancar as agulhas é difícil,

essa dor que nos causam, recorrente,

aparece nos dias sem amparo,

nos dias de nebilna mais cerrada,

em que o gelo recobre o coração.

 

Isabel Gouveia, A Incerta Viagem (2017) 

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02
Out 18

ERÓTICA RÍTMICA

São rubras as rochas

Os rostos    as faces

São dúbios os gestos

Gravados nas rochas

No voar das aves

 

São raras tão raras

As aves nos rostos

E lentos enleios

Percorrem os dedos

Nas casas nas casas

Segredos segredos

 

São breves tão breves

Os olhos os corpos

Pesados escopos

e tantos tão poucos

(estilhaços e danos)

 

António Carlos Cortez, A Dor Concreta (2016) / Ritos de Passagem (1999)

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01
Out 18

"A perda do amor é sempre dano,"

A perda do amor é sempre dano,

sente-se que alguma coisa foi

pelo cano abaixo, mas o amor tem

a coisa de poder voltar. Às vezes

não volta ou então é apenas

fingimento, não passa de uma

cadeira onde nos podemos sentar.

 

Helder Moura Pereira, Golpe de Teatro (2016)

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29
Set 18

"O sol se insinua e ensina seus silêncios"

O sol se insinua e ensina seus silêncios

e já aflora lá fora a estridência dos gritos,

a irridência irritante das TVs tão cedo ligadas

o surdo monólogo dos que se creem diálogo

 

Tento falar, há em minha volta um vidro

espesso, tropeço em verbos feitos cacos.

Sempre assim, mal a palavra faz-se voo,

dolorosamente quebra-se no ar. Gritar?

 

Em todas as montanhas há um eco ao avesso,

leva os sons e os perde no vácuo, no vento

e o verso estanca. Há séculos tive um ouvinte

de velho cansou-se deste tempo de surdos.

 

Desde então, me calei,

quando eu for silêncio talvez me escutem.

 

Lucio Autran, Fragmentos de um Exílio Voluntário (2016)

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28
Set 18

FAMIGERADO

Ninguém atentaria

pra ele

não fosse

 

o voo

               vigilante

               dos urubus.

 

Weslley Almeida, Memórias Fósseis (2016)

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26
Set 18

"Quem perder tudo ganha"

Quem perder tudo ganha

um jogo de lençóis

lâmpadas quase eternas

um fogão gás de bilha ou cidade conforme

um clássico do materialismo histórico edição revista

um passe social

um novo fôlego

a separação cirúrgica entre signo e referente

um punhado de cinzas lá para o fim

 

e ainda

uma infância reinventada

um incêndio em memória à escolha

 

Miguel Cardoso, Víveres (2016)

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25
Set 18

...PENÉLOPE (1)

Penélope tece o bordado

Tece

Destece

Tece

Destece

Desce

Padece

Entristece

Adoece

Envelhece

Fenece

Amortece

Enlouquece

Anoitece

Amanhece

Amadurece

Rejuvenesce

Cresce

Esquece

E desiste de esperar por Ulisses, que no fundo não a merece.

 

Tatiana Alves, O Amor Segundo... (2017)

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21
Set 18

de A MENINA GOTINHA DE ÁGUA

[...]

Era

um dia de sol

na Primavera,

trinavam

os passarinhos

nos seus violinos,

tocavam os grilos

e os grilões

nos seus rabecões,

assobiavam os melros

nos seus flautins

e os sapos,

os sapinhos

e os sapões,

à porta

das suas casotas,

estavam a ouvir

contada pelo sapo Zé Manel

a história

dum menino

que foi poeta e pastor

da Primavera

e que era

muito amigo

dos sapos

e sapinhos

e sapões

e de todos

os que são

(como os sapos)

humildes mas têm

bom coração.

 

Papiniano Carlos, A Menina Gotinha de Água (1962)

Crianças-SapoZeManel-JoanaQuental-PapinianoCarlos

(Joana Quental)

 

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