TEJO

O Tejo não era rio, era um cão grande.
Mordia a terra se não ouvia o avô cantar
entre as searas. Ladrava ao céu
ladrava e criava subterfúgios dramáticos.
Eu pensava: está bêbedo. As pessoas
também arranham as sombras do corpo
quando estão bêbedas. Houve
uma páscoa em que o Tejo não arranhou
a sombra não mordeu a terra. Enrolou-se
numa paisagem de cinza. Ficou assim
a vida inteira. E eu a dizer a vida inteira:
creio nas saudades dos cães.

Maria Augusta Silva
publicado por RAA às 12:50 | comentar | favorito