06
Ago 10

...

Às árvores regresso.
E como não
se eu nunca vi árvores?
Árvores, pois.
Árvores baixas e altas
de folha persistente ou não.
Nespereiras.
Uma oliveira gigantesca.
Uma araucária.
Romãzeiras talvez.
Detrás delas
rente ao muro
uma moita rasteira e hirsuta.
Talvez buxo.
Saltita lá um pássaro
pequeno e grisalho.

Pássaros?
Depois das árvores
só os pássaros me faltavam.
Os pássaros que eu também nunca vi
nem fazia ideia que existissem.
E muito menos aqui.
Este ao de leve se espaneja
com arrepios felizes.
Por duas vezes canta
antes de levantar voo.
Passa rente a mim.
Bate as asas
e no ar desaparece
deixando atrás de si um rasto de luz.
O eco do seu canto
eterno me parece.

[Comprovo agora
enquanto passo isto a limpo
noutra casa e noutra janela
a verdade desse pressentimento.
O pássaro de lá canta aqui, aqui, aqui
sem precisar de estar.]

António Cândido Franco
publicado por RAA às 23:00 | comentar | favorito

A Pequena Pátria

Autor: João Miguel Fernandes Jorge (Bombarral, 1943)
Título: A Pequena Pátria
Edição: 1.ª
Editora: Editorial Presença
Local: Barcarena
Ano: 2002
Capa: Vera Espinha
Págs.: 134
Dimensões: 21x12,5x1 (brochado)
Composição: Multitipo
Impressão: Guide
Obs.: antologia
publicado por RAA às 19:44 | comentar | favorito
06
Ago 10

CAFÉ COM LEITE

Ó meu café, meu «music-hall» de fumo...
Meu vistoso teatro de fantoches...
Corpos exaustos como velhos coches,
Mas que trazem a alma a fio de prumo...

Mesas onde a minha alma se baloiça...
Trottoirs dos meus dedos vagabundos...
Canais compridos, largos e profundos,
Onde os pires são gôndolas de loiça...

Sorrisos de Satan pelas bandejas...
As gabardines verdes são lagartas!
Certas brancuras lembram as igrejas:
Guardanapos, jornais, papel de cartas...

Dos creados de mesa é que se fazem,
Sem dúvida, os melhores malabaristas;
É na ponta da unha que eles trazem
Facas e copos, galheteiros, listas...

Uma orquestra de vozes irreais
Entre rolos de fumo se levanta:
A rapsódia em lá: cordas vocais...
Tziganos vermelhos na garganta!...

Entram mulheres: trazem, em seus vestidos,
As estátuas, eléctricos, o Sol...
Hirto como o soldado no Verol,
Sou o Napoleão dos meus sentidos...

Nuevo Mundo, La Esfera, Illustration,
Uma revista semanal inglesa...
A Vogue, a Femina e o Fon-Fon
São amostras do mundo pela mesa...

Hotel de pernoitar para os artistas...
Vejo em trajes menores o pensamento...
Poetas, pinta-monos, jornalistas...
Com nódoas de café pelo talento...

E, finalmente, este poema franco,
Este poema sem nenhum enfeite,
Em tinta negra sobre o papel branco,
É uma taça de café com leite...

António Ferro
publicado por RAA às 16:15 | comentar | favorito