11
Ago 10

O SEGREDO DA MATÉRIA

Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.


Rosa Alice Branco
publicado por RAA às 20:51 | comentar | favorito

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade
publicado por RAA às 16:22 | comentar | favorito

SOL

Sete homens foram presos
quando pela noite
os cabelos puxavam
a uma rapariga.

Algures na cidade
eles só buscavam
o dia sumido.
«Olha ali o sol»

-- dissera um
na solidão do Metro. Era
uma cabeça loira

-- e mal os raios tocaram acesos
ali se prenderam
e foram presos.

Pedro Alvim
publicado por RAA às 14:26 | comentar | favorito
11
Ago 10

A ORIENTE DE MIM

A oriente de mim
há uma estrada
por onde vim
trazido a esta parte.
Foi construída com arte
e desemboca no Nada.

Adalberto Alves
publicado por RAA às 01:55 | comentar | favorito