16
Ago 10

THE GRAVE

Já tinhas pronta uma casa
inda estavas por nascer;
não é alta nem folgada,
mal te podes estender;
o tecto não se alevanta,
fica em cima do teu peito;
é à justa o comprimento
por tua medida feito;
as paredes são de terra
talhadinha com cautela;
não tem postigo nem porta
nem poderás sair dela;
chamas pelos teus amigos,
nenhum quedou a teu lado;
ninguém virá de mansinho
ver se dormes descansado:
pois só os vermes, aí
na pousada negra e fria,
não terão nojo de ti
e te farão companhia.

Anónimo (Século XIII)
(Luís Cardim)
publicado por RAA às 22:41 | comentar | favorito

FRÉMITO LITERAL

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um olhar crepe rés ao barro
a terra entumescida o sexo venal
o gesto afásico nos contornos flácidos
da várzea informe

palavra desconhecida inventada
o estrépito adstrito
vagalhão real
a pedra revolta
palavra desenhada para ser esquecida

recordação migratória em que te embalas
nas profundezas da madrugada
sublime o entendimento
em que arrastas o foco
do regozijo baço:
é um tempo quebrado ao longo
das portas que já não abrigam o movimento
enquanto a dor se refresca num largo voo

frémito literal ou palavra tressuada
a morder as gengivas deputadas

um sangue que acaricia ao ritmo
dum olhar que passa
o grito duma terra indecisa
a força da memória derrotada pelo lamento
nu e húmido

na fronte o vil metal
na boca o pão sem sal: frémito

António Duarte Camacho de Brito Figueirôa
publicado por RAA às 19:44 | comentar | favorito

DA FERIDA

Regresso, depois da litania,
à contemplação sem voz.
A memória da música é
amarga, quando estou só.
Os quartetos de Beethoven
arrancam-me uma parte
do corpo em substância.
Ferida, terei de ir ainda
à cidade dia a dia.

Fiama Hasse Pais Brandão
publicado por RAA às 16:06 | comentar | favorito

ZAPPING

Uma mulher que espera.
Um homem que contempla a sua mortalidade.
As estagnadas vendas no imobiliário.
A nuvem atómica sobre recifes de corais.
O imprevidente regresso à casa da tortura.
Amazonas insaciáveis raptam guerreiros feitos escravos.
O metal como delírio erótico.
A aniquilação do mundo num enorme desastre de automóvel.
6 de Junho a partir das 19 Jazzanova e outros que tais.
O índice Dow Jones como fétiche.
O sangue insurrecto ou inocente mancha o asfalto.
O vibrafone mais cool do século.
A estranha vida sexual do senhor Musaranho.
O cântico das baleias em águas tropicais.
A torre em aço e vidro arde por dentro e desaba.
O negro-vinil do corvo.
Sete palmos de terra.

A TV radical não será vista por ninguém de bom nome.

Luís Quintais
publicado por RAA às 14:18 | comentar | favorito

NO LOCH NESS, ESCÓCIA

Dizem-me que, desde há muitos séculos,
existe um monstro escondido nas profundezas do lago,
cabeça de dragão, corpo de serpente, rabo de peixe.
Um céu baço e frio,
o verde intenso das florestas,
o lago sereno, de prata fina.
Onde pára o monstro?
O maior de todos os mistérios:
os homens caminhando sobre a terra.

António Graça de Abreu
publicado por RAA às 12:26 | comentar | favorito
16
Ago 10

...

a uma deliciosa negrinha
que, de mini-saia todas as manhãs me serve
um delicioso mini-café, mostrando muito mais
do que lhe convém

rasgo-te a saia não creias
poder negar por mais tempo
a razão que é meu tormento
tua bunda poderosa
serves à mesa o café
que me provoca e revive
serves e anzolas manhosa
tua bunda viciosa
bunda que ainda não tive
mas vai-te escudando tu
como te cumpres vaidosa
já me ultrapassaste a raia
que um dia de estes me passo
alargo à bunda um abraço
grito um grito Ivanhoe
bebo o café vou-te ao cu
e nem te restauro a saia

Jorge Marcel
publicado por RAA às 11:18 | comentar | favorito